A família no cinema: uma questão de equilíbrio agri-doce
Escrito em 15. jan, 2009 por Milena Azevedo | Tema: Crônicas, Sétima Arte
Retratar, no cinema, a família e as relações intensas e conflituosas entre os seus membros não é tarefa para qualquer cineasta. Tem que ser feita com o equilíbrio do tempero agri-doce: ora cômica, ora trágica; ora romântica, ora realista; ora colorida, ora em tons de sépia.
Já assisti a excelentes filmes nos quais a família era o foco principal da trama, entre eles, o italiano Parente… é Serpente (Parenti Serpenti, 1992), o norte-americano Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006), o vietnamita As luzes de um verão (Vertical ray of the Sun, 2000), o sueco Fanny e Alexander (Fanny och Alexander, 1982) e o primeiro filme do movimento Dogma 95, o dinamarquês Festa de Família (Festen, 1998).
Nenhum filme latino-americano, até então, havia chamado a minha atenção nessa
temática. Mas eis que assisto a Família Rodante (Familia Rodante, 2004), sexto filme do diretor e produtor argentino Pablo Trapero, no qual ele também assinou o roteiro, e escalou para o papel de Emilia, a sua própria avó, Graciana Chironi, que interpreta a matriarca da tal “família rodante” – e chegou a concorrer e ganhar prêmios por sua atuação.
O filme inicia-se com o aniversário de Emilia, que completa 84 anos de vida. Nessa
mesma noite, recebe um telefonema de sua irmã, Nata, que mora em Missões, convidando-a para ser madrinha do casamento de uma sobrinha. Emilia aproveita a ocasião e intima a todos os familiares a ir com ela para a cerimônia. Todos se aprontam para essa viagem de última hora, e embarcam num Chevrolet Viking 56, adaptado por Oscar, marido da filha mais velha de Emilia, Marta, como um trailer, e seguem de Buenos Aires até Missões (na fronteira entre Brasil e Paraguai).
Já não bastassem as confusões dentro da família (Paola, filha de Oscar e Marta, cujo companheiro não é aprovado pelo pai, a prima que fica a fim do primo, cujo interesse amoroso é a amiga da prima, e o cunhado que aproveita toda e qualquer oportunidade para dar em cima de Marta, que já teve um relacionamento com ele no passado), há as que eles encontram na estrada.

Em Família Rodante, Trapero nos mostra uma família de verdade, despida de falsos moralismos, com a qual a gente facilmente se identifica, e passa o filme rindo e se emocionando junto. Por essa razão, o ponto forte do filme recai justamente nas interpretações dos atores, todas excelentes e convincentes, sem exageros ou maneirismos. E Trapero repete o que vinha fazendo nos seus trabalhos anteriores: mescla atores tarimbados com pessoas que estão debutando em frente às câmeras, extraindo o melhor que cada um pode dar.
Tenho um apreço grande pela retomada do cinema argentino. Admiro os diretores Fabián Bielinsky (Nove Rainhas), Carlos Sorin (O cachorro), Adolfo Aristarain (Lugares Comuns), Alejandro Agresti (Valentin) e Lucía Puenzo (XXY). Com o road movie Família Rodante o elo ficou ainda mais forte, além de ter sido o primeiro filme do Pablo Trapero ao qual eu assisti. Tal qual o almoço do domingo, dá vontade de repetir o prato principal e, mesmo assim, ainda sobra espaço para a sobremesa.
Milena Azevedo
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Asfixia.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Discípula de Rilke e Eisner, prefere os textos simples e eficazes, sem muito floreio-vazio-pseudointelectualóide. Aprendeu com Heródoto e com Burroughs a relatar o que vê e ouve e a inventar o que não consegue enxergar.



