A filosofia descolada
Escrito em 13. fev, 2009 por Milena Azevedo | Tema: Crônicas
O estudo da filosofia deveria ser algo corriqueiro entre jovens e adultos no Brasil. A filosofia trata de questões e dilemas cotidianos, faz-nos pensar sobre o sentido da vida, sobre a nossa relação com as coisas do mundo, sobre o que é o real, sobre a mecânica do universo. Porém, Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Kant, Sartre exigem concentração, abstração e empenho para terem suas teorias dissecadas e compreendidas, as quais serão aceitas ou refutadas por quem as está estudando.
A partir da década de 1990 começaram a aparecer trabalhos cujo maior interesse era a popularização da filosofia, retirando-lhe assim a pecha de pedante. Um dos primeiros romances nesse sentido foi O Mundo de Sofia, do norueguês Jostein Gaarder, publicado no Brasil no ano de 1995. O Mundo de Sofia explica, de forma lúdica, praticamente todas as correntes filosóficas, desde o seu surgimento na Grécia pré-socrática, com Tales de Mileto, até o existencialismo sartreano do século XX.
Outro autor que se destacou bastante a partir da década de 1990 foi o filósofo inglês Mark Rowlands, que tem cara de surfista californiano e por si só já é um barato. Dois livros seus, publicados no Brasil em 2005 e 2008 respectivamente, Scifi = Scifilo: a filosofia explicada pelos filmes de ficção científica e Tudo o que sei aprendi com a TV: a filosofia e os seriados de TV, colocam-no como a melhor expressão da filosofia pop na atualidade.
Em Scifi = Scifilo, Rowlands analisa doze filmes, entre eles: Matrix, O Exterminador do Futuro 1 e 2, O Vingador do Futuro, Star Wars e Blade Runner. Ao fazer as análises desses filmes, demonstra a que correntes ou princípios filosóficos cada um deles está relacionado, proclamando Arnold Schwarzenegger como um dos melhores filósofos de Hollywood.
Tudo o que sei aprendi com a TV é Rowlands tentando fazer valer a sua mania de assistir a seriados de televisão como Buffy – a caça vampiros, Família Soprano, Friends, 24 horas, Os Simpsons, entre outros, mostrando-nos que até do enredo aparentemente mais besta e comercial possível, pode-se fazer altas considerações filosóficas.
Ao contrário de muitos professores universitários que se veem por aí, que fazem de suas aulas verdadeiros shows de egolatria, falando difícil e hipnotizando os alunos para que sejam uma grande plateia de aplausos vazios (ou de roncos estrondosos), Gaarder e Rowlands humildemente vão até os alunos, procurando entrar em seu universo e falar a sua língua, para assim melhorar a frequência cognitiva de seus pupilos.
Tenho um apreço muito grande por Gaarder e por Rowlands, pois entendo que “simplificar” a filosofia não é banalizá-la, pelo contrário, é fazer com que ela chegue a um vasto número de leitores totalmente heterogêneos, que de outra forma nunca abririam Tratado da Natureza Humana ou Assim falou Zaratustra.
OBS: meu primeiro post dentro da nova regra ortográfica. Quem quiser saber se está escrevendo certo de agora em diante, pode acessar o site Ortografa.
Milena Azevedo
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Asfixia.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Discípula de Rilke e Eisner, prefere os textos simples e eficazes, sem muito floreio-vazio-pseudointelectualóide. Aprendeu com Heródoto e com Burroughs a relatar o que vê e ouve e a inventar o que não consegue enxergar.



