Ataque Massivo
Escrito em 22. nov, 2008 por Fernando Aureliano | Tema: Contos
Eu lhe dei um beijo, mas ela já estava morta. Pouco tempo depois eu também estaria. Nem lembro se tive tempo de tirar meus lábios dos dela. Não éramos Romeu e Julieta. Na verdade, eu nem sabia o seu nome, mas nós já estávamos mortos. Ela sequer sabia que eu lhe beijara. No último momento da minha vida, senti tanto desespero por dentro que a única coisa que consegui fazer foi me apaixonar. Mas havia outro homem no andar, no mesmo andar, e ele não estava desesperado.
A penúltima coisa que vi foi ele passar pela porta em direção as escadas do edifício. Mas não me importei, afinal, apenas o vi acidentalmente, de relance, era o único que não corria, mas eu tinha outras preocupações. A Segurei em meus braços. Eu sabia que seria o próximo, percebi então que a amava, porque eu era como ela. A abracei e beijei, simples assim. E antes que pudesse terminar, nós já éramos iguais. Meu corpo caiu sobre o dela quase como num abraço.
Em seguida, a polícia também apareceu subindo as escadas, alguns com armas pequenas e amedrontados. O homem que a pouco havia seguido por aquelas escadas também era um de nós. Por ali não havia sinal de pássaros ou aviões. Em breve seríamos todos uma família ao partilhar da mesma condição, pelo menos assim eu supunha.
Havia muitas pessoas subindo e descendo as escadas, dava para saber os sentimentos de cada uma pela direção em que seguiam. O som dos passos nunca foi tão expressivo. Não me importei com os choros e os gritos porque àquela altura já era algo comum. Mas aqueles passos…e eu estava no chão, e aqueles passos…todo o momento em que estive vivo ali, eu realmente me senti quase como uma barata.
Às oito da noite não havia silêncio, apenas raspagem de sangue e coleta de corpos. O céu estava nublado, mas todos pareciam contar estrelas.
Fernando Aureliano
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Asfixia.
Mutável, ambivalente e perturbado. Diretor de animação e ousado. Adora cachorros e cerveja; usa Apple e não vive uma semana sem ir ao bar jogar conversa fora; não sabe mais escrever a mão e ama a música; é ateu e não tem papas na língua. É a típica pessoa que, ou você ama, ou você odeia. Não gosta de quem concorda com ele, e admira as pessoas que discordam de suas ideias. É viciado em informação e está sempre disposto a se reinventar.




Tati
nov 25th, 2008
Lindo! Simplesmente lindo!
Adoro textos assim, sem muito rodeio, nem explicação demais…
E você é muito bom nisso.
Renato Gomes
dez 29th, 2008
Puxa cara, muito parabéns mesmo por esse trabalho, achei genial a forma como vc aborda o conto, apesar de não deixar muito claro (e acredito que é essa sua intenção) gostei bastante da forma como vc faz do leitor um cumplice, parece até que nós estamos na mesma situação que a dos personagens, ficamos atordoados e tentando entender o que tá acontecendo. Muito foda! parabens!
Marcelo
jan 6th, 2009
legal esse conto. So acho que vcs deviam colocar mais alguns no site…
Fernando Aureliano Reply:
janeiro 10th, 2009 at 7:10 am
Isso é verdade, vamos colcar esse bando de preguiçoso pra trabalhar… heheh
Martins Lira de Souza
jan 6th, 2009
Vc ja pensou em quadrinizar essa historia? Acho que ficaria massa! E ja que o site de vcs aborda tanta coisa, bem que poderia ter historias em quadrinhos tambem.
Fernando Aureliano Reply:
janeiro 10th, 2009 at 7:09 am
Estamos trabalhando em algumas historias que logo serão publicadas, aguarde e confie.