AVATAR
Escrito em 19. dez, 2009 por Fernando Aureliano | Tema: Sétima Arte
Apesar de sua produção ter se iniciado dez anos atrás, Avatar consegue ser, não apenas contemporâneo, mas também assume a responsabilidade de trazer a vanguarda de volta ao cinema de ficção, reinventando conceitos já abordados pelo próprio diretor, bem como nos apresentando uma magia visual e encantadora, que realça a beleza da história de forma que esta não se torne o filme em sí, como ocorre em vários filmes baseados em tecnologia digital, mas fazendo o seu trabalho, que é de composição e contraste da narrativa.
A primeira coisa que me ocorreu quando o filme acabou (depois de “PORRA!”), foi que James Cameron deve ser um daqueles perfeccionistas insuportáveis, pois é simplesmente impossível alcançar tanta perfeição visual sendo uma pessoa acomodada, ou mesmo com um critério normal. Neste filme, vi cores que jamais minha retina havia captado; ângulos ousados, e mais ainda, me senti parte da narrativa, não apenas um observador. Me senti na própria floresta de “Pandora”.
Também é impossível distinguir a computação gráfica da maquiagem ou dos cenários físicos. Tudo se encaixa visualmente. A história nos passa a idéia de que os seres de “Pandora” estão todos conectados, que são, basicamente, um só. E esta não é apenas uma concepção do roteiro, mas também do design e da direção de arte, que nos convence que tudo está, de fato, integrado visualmente.
Vários elementos da história de Avatar já foram ensaiados em outros filmes do diretor: A personagem feminina forte e o ambiente militar ressurgem da mesma forma que em seus melhores filmes anteriores. Temos também as naves de Terminator, que ressurgem com um conceito ainda mais avançado, mas com toda sua essência; O exoesqueleto/robô gigante controlado por um humano em seu interior, que podemos ver também no final de Aliens – O Retorno. É como que se tudo que ocorreu nos filmes anteriores tivesse servido de laboratório para Avatar, pois o que está ali não são os elementos propriamente ditos, podemos percebê-los em sua maturidade, não apenas em sua essência.
A história traz de forma MUITO natural, elementos da cultura geek atual, como videologs, o que nos aproxima ainda mais e nos faz perceber melhor a questão psicológica dos personagens, por entendermos esses recursos como parte de uma cultura social atual e que atende a necessidades psicológicas de nossa geração. Esses elementos são utilizados como uma ferramenta para aproximar o público de questões culturais próprias do mundo criado por Cameron em seu universo mitológico. Tudo funciona como uma trilha de queijo que nos leva até uma armadilha feita, não por grades, mas por janelas, por onde enxergamos um “velho novo mundo”, criado e reinventado por seu diretor, que nos faz observar novamente o conceito do bem e do mal, e que mostra que nós não somos exatamente o lado adequado a se estar.
Somos guiados por todos esses conceitos narrativos (não novos) de o bem e o mal definidos, o aprendiz, o mestre, a traição. Mas tudo é utilizado como uma estrada dourada até uma consciência maior, para representar algo que já sabemos, mas precisa sempre ser relembrado.
Neste filme, podemos observar o choque da mitologia e da ficção, que representa a fé não como algo manipulador, como em nossa civilização, mas como algo puro, de forma que jamais foi tratada por nossa consciência não coletiva, e sim centralizada, em prol de um “bem menor”, como é hoje em nossa sociedade “civilizada”. Temos aqui uma perspectiva já vista antes em filmes como “Dança com lobos”. A mitologia de James Camereon não tem olhos feitos para enxergar um espelho, e sim o próximo. Uma representação das culturas indígenas de todo o mundo, que já provaram várias vezes que nós não somos mais avançados que eles em nível cultural. A fé é exposta com pureza tal, que dá até vontade de ter um pouco, mas a própria seqüência de eventos nos mostra a cegueira e a falta de propriedade de nosso povo sobre sua própria consciência.
Avatar é algo mais. Muito maior do que um conceito defasado de herói. Ele nos põe em nosso lugar, que é atrás de uma arma em cima de uma pilha de dinheiro. Este filme não é uma guerra da ficção contra a mitologia, mas a representação delas em um cenário que nós já conhecemos, e onde somos os cegos com uma caneca na mão. A arte e o objetivo da representação não é só atuar, mas também fazer perceber através de uma série de cortinas, o grande show que se passa a frente delas, para nos distrair com sua beleza. Avatar é percepção exposta através do teatro comum, reinventado, onde as cortinas são transparentes, onde não vê quem não quer. E nós estamos no palco.
Fernando Aureliano
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Asfixia.
Mutável, ambivalente e perturbado. Diretor de animação e ousado. Adora cachorros e cerveja; usa Apple e não vive uma semana sem ir ao bar jogar conversa fora; não sabe mais escrever a mão e ama a música; é ateu e não tem papas na língua. É a típica pessoa que, ou você ama, ou você odeia. Não gosta de quem concorda com ele, e admira as pessoas que discordam de suas ideias. É viciado em informação e está sempre disposto a se reinventar.




@estivador
dez 19th, 2009
eu to doido pra ver esse filme >.>””’ se ateh tu q eh um reclamão da porra gostou. esse filme deve ser the epic movie to rule the all =o
Mariana Lisboa
dez 19th, 2009
Você é o melhor crítico de cinema que eu já li. Parabéns \o/
Karlisson
dez 19th, 2009
Filme épico. Verei de novo e comprarei o DVD.
cliffoliveira
dez 19th, 2009
atrevo a dizer que o comprimento: Eu vejo você!
vai virar moda ao lado de vida longa e prospera!
Ibirá
jan 1st, 2010
Fui finalmente ver o filme e gostei MUITO! É impressionante como as coisas são TÃO BEM FEITAS, são tão reais. Eu cheguei a ouvir algumas críticas negativas em relação a uma certa banalização e babacalização de rituais religiosos no filme, mas eu discordo totalmente. O povo de Pandora representa, como você disse, todos os nossos povos indígenas do planeta Terra, e acho que os rituais de Pandora são simplesmente tão reais quanto os que existe em nosso planeta. Não achei que tenham sido ridicularizados, ao contrário.
Enfim, um filme pra se ver e virar um marco.
Abração e feliz ano novo!