Consoles
Escrito em 29. jan, 2009 por Milena Azevedo | Tema: Contos
Bruno tem onze anos e é fissurado por videogames.
Ele é da geração Playstation, mas agora passa por uma crise devido ao Nintendo Wii; se bem que, na verdade, ele gostaria mesmo era de ter ambos os consoles.
Ele é um bom filho, estudioso, comportado, mas não vive sem videogame. É vício mesmo.
Eu e o Joca já conversamos sobre levá-lo a um psicólogo, mas pensamos melhor e estamos tentando fazer com que ele estabeleça horários para jogar videogame, estudar, ler e brincar com os coleguinhas da rua; mas brincar mesmo, digo, jogar bola, andar de bike, correr. Isso porque, descobri que ele e os coleguinhas juntavam-se para jogar mais videogame, disputando jogos de corrida, esqui na neve e outros esportes radicais.
- Bruno, você vai se atrasar para o colégio. Desliga esse Playstation e vem logo tomar café! – grita Joca impaciente.
- Tô indo, pai. Deixa só o Snake aqui detonar mais alguns inimigos. – Bruno fala todo empolgado.
- Meu filho, todo dia é a mesma coisa. A gente já conversou sobre isso. – falo eu, pacientemente.
- Ah, tá bom… – resmunga Bruno, desligando o videogame, contrariado.
(Ouve-se um barulho estridente de buzina)
- Olha aí, a van já chegou pra te buscar e você nem comeu direito… – diz Joca.
- Ah, pai, esquenta não. Eu levo duas barrinhas de cereal e como na van. – justifica-se Bruno, já em direção à porta.
- E isso lá é café-da-manhã, menino? – eu questiono, mas Bruno mal ouve, pois correu direto para a van.
- Tá vendo, amor? Esse garoto não toma jeito. Eu já estou ficando muito chateado com essa situação. – queixa-se Joca.
- Por quê?
- Ele deixa a TV pegando fogo pra gente… E a gente só tem pouco tempo, você sabe.
- Então, bobo, pára de reclamar e pega logo a caixa, que eu estou louca pra te dar uma surra.
(Joca vai ligeiro até o nosso quarto, abre o guarda-roupa e tira uma caixa lá de dentro).
- Vem depressa, amor!
- Já estou chegando… Me ajuda a montar, vai?
- Pronto! Agora falta escolher qual é o da vez.
- Keystone Kapers a gente já jogou muito, Seaquest, também, e Enduro nem se fala…
- Ah, você está querendo o Decathlon, não é, Elvira?
- Adivinhou…
- Mas, se o joystick quebrar, daqui que eu encontre alguém pra arrumar…
- Ah, a gente só joga arco-e-flecha, vai.
- Tenho uma idéia melhor. Encontrei o cartucho perdido…
- Não acredito?
- River Raid, aí vamos nós!
Na verdade, eu e o Joca sabemos que a paixão do Bruno pelos videogames é hereditária.
F I M
P.S.: esse conto foi escrito especialmente para uma coletânea de uma editora do Rio Grande do Sul, que infelizmente cancelou o projeto.
Milena Azevedo
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Asfixia.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Discípula de Rilke e Eisner, prefere os textos simples e eficazes, sem muito floreio-vazio-pseudointelectualóide. Aprendeu com Heródoto e com Burroughs a relatar o que vê e ouve e a inventar o que não consegue enxergar.



