CONTEÚDO: De onde veio, pra onde vai e quem paga?
Escrito em 27. jul, 2009 por Fernando Aureliano | Tema: Crônicas
Vivemos em uma época em que pagar por um celular novo ou uma massagem nas costas é o que todo mundo faz, já fez ou quer fazer, mas pedir pra pôr a mão no bolso para adquirir conteúdo se tornou uma ofensa.
Com o início deste século veio também um novo surto mundial. As novas gerações simplesmente amam loucamente produzir conteúdo. E talvez nós sempre tenhamos gostado de fazer isto. Se você considerar que uma piada na mesa de bar, aquela história que o velho da esquina ou até mesmo o seu avô contavam, se você parar para pensar, nós os seres humanos, sempre gostamos de entreter, contar piadas e histórias. Muitos de nós gostam até mesmo de encenar suas piadas. Se você parar por alguns momentos, olhar em sua volta, observar as pessoas e raciocinar historicamente você perceberá que nós fomos e somos macacos de circo com uma saia rosa na cintura e uma banana na mão. A verdade é que somos produtores de conteúdo por natureza. Seja na esquina, na escola, adulto ou criança, para um amigo ou uma turma, eu e você, “homem animal”, adoramos entreter, ou seja, gerar ou repassar conteúdo.
Agora que sabemos que isto faz parte de nossa natureza intelectual, podemos entender que o verdadeiro surto não foi o de geração de conteúdo, e sim a disseminação deste. Hoje qualquer um com um computador de R$ 600 e uma internet de 100kbps pode ter sua própria revista (blog), emissora de TV (Youtube) ou programa de rádio (podcast) e transmitir para mais de 1 bilhão de usuários de web que vivem em nossa bola azul, um número que só tende a crescer ou inchar, se você for analisar os tipos de usuários que existem e que estão surgindo.
Quando a televisão surgiu, ela devia ter se tornado a melhor coisa do mundo, no entanto, uma vez que “Grandes Corporações” tomaram conta de tudo, elas resolveram utilizá-la como instrumento de lavagem cerebral e não de propagação da informação de qualidade. Mas deste meio podemos salvar alguns canais pagos, que conseguem ensinar em um dia o que um aluno de escola (pública ou privada) não vai aprender durante todos os seus anos de escola neste nosso amado país chamado Brasil. Mas vamos voltar a web, onde não existem “Mega Corporações” controlando o conteúdo, onde este é produzido pelo próprio público. Há um sério problema nesse público, ele foi educado que conteúdo é o que passa na TV, e parte dessa geração de produtores desenvolvem material do mesmo nível ou pior. E quem são estes? São os blogs que nada mais fazem que publicar viralzinho de internet. Sabe, aquelas coisas: “Olha que video legal”; “Fulaninha ta ótima nesse cartaz”; “Sicraninho foi cotado para fazer tal filme”; Posts que não passam de dois parágrafos curtos e que apenas repassam informação de outros sites, como quando vai 15 emissoras cobrir a mesma coisa na TV, ou telejornais que fazem matérias curtas de 2 minutos. O Twitter já está por aí com a finalidade de fazer a propagação desse tipo de conteúdo mais “enxuto”. Enfim… agora vivemos uma realidade onde as emissoras fazem lavagem cerebral e alguns blogs destroem a concetração. É um ataque “overkill” nos consumidores de conteúdo, tudo isto por uma coisa chamada audiência. Seja na web ou na TV, algumas emissoras como alguns blogs querem única e exclusivamente audiência, sem se preocupar com a qualidade do conteúdo ou da própria audiência.
E com todo esse conteúdo sendo disponibilizado gratuitamente, tanto por pessoas sérias e originais quanto por papagaios de web, chegamos a um ponto em que, bem ou mal, nós temos todo e qualquer tipo de conteúdo disponível na web, que assim como uma banca de revistas, tem material para todos os gostos, de alta e baixa qualidade. E com tudo isso disponível, quem vai querer pagar por uma revista ou jornal? OK! Você ama papel. Massa! Que bom! Mas se você quer aprender a fazer uma sopa de mandioca, você pode ir na banca, perder tempo procurando, talvez achar, e ainda ter que pagar R$ 5 por isso, ou você pode encontrar com toda certeza em 20 segundos na web, o nosso caldeirão de imediatismo. Tá, passear e folhear também é legal, mas entenda: As pessoas não tem mais tempo, você não tem mais tempo.
Devido a estas séries de questões nós temos revistas e jornais falindo ou migrando apenas para a web. Só que aí vem a cultura que está sendo produzida dentro da rede: “Já que ta na web, eu não tenho que pagar”. As pessoas estão entendendo que todos são donos de tudo que está disponibilizado na web. Somos? Eu não pagaria para acessar um site, mas não faria questão de dar R$ 3 em um aplicativo da “App Store“. Muita gente não quer tirar nem isso do bolso por um produto que vai usar, porque mesmo ele sendo digital, não é conteúdo, é produto. E convenhamos, as pessoas que não querem pagar nem R$ 3 que seja em um programa são uns canalhas!
Nós já sabemos que produtores de conteúdo não precisam comer, uma vez que eles adoram trabalhar de graça. Mas com todo esse conteúdo disponível e com tanta gente migrando para a informação gratuita, que agora está com tanta audiência, os anunciantes também estão migrando para este meio. Anunciando a torto e a direito, pagando probloggers por posts, banners, produzindo virais e tudo o mais que você imaginar. Vários dos nossos despretensiosos produtores de conteúdo começam a fazer dinheiro “sem querer querendo”. Como exemplo podemos citar a Stephany, que ganhou de presente um Cross Fox da Volks (o que é justo, com a propaganda que ela fez…), e que agora virou garota propaganda de automóveis.
Ganhar dinheiro na web virou uma roleta russa, onde bloggers desesperados por audiência – que criam até categorias com fotos de mulheres gostosas -, não ganham nada, onde usuários despretensiosos se dão bem e onde as mídias impressas estão quebrando porque ninguém quer pagar por conteúdo. Vocês estão percebendo a loucura que o meio de produção de conteúdo está se tornando? Mas eu respiro aliviado por acreditar que não chegaremos a “Mega Corporações”, uma vez que a web está nas mãos de todos. No máximo uma “panelinha” de blogueiros mais conhecidos (e muitos não passam disso), mas ainda assim a web é nossa.
E eu estou feliz! Que quebrem as jornais e as revistas, eu não tenho medo da mudança, não acho que tenho que me prender a algo só porque estou acomodado a ele. Várias espécies de animais no planeta desaparecem a cada dia, tipos de mídia também morrem a cada década. O que precisamos fazer é garantir que os próximos meios tenham qualidade, quem sabe até bem melhor que os que temos hoje. Que os jornalistas percam seus diplomas, que as emissoras quebrem, estou achando tudo isso tudo muito natural, e outras alternativas já começam a surgir, como o canal de jornalismo colaborativo do Youtube, onde qualquer um pode denunciar qualquer coisa, não são só grandes jornais que podem denunciar, isso é lavagem cerebral. O público precisa começar a pensar sozinho, porque as mídias que dizem como as pessoas tem que fazer isso estão começando a morrer.
Fernando Aureliano
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Asfixia.
Mutável, ambivalente e perturbado. Diretor de animação e ousado. Adora cachorros e cerveja; usa Apple e não vive uma semana sem ir ao bar jogar conversa fora; não sabe mais escrever a mão e ama a música; é ateu e não tem papas na língua. É a típica pessoa que, ou você ama, ou você odeia. Não gosta de quem concorda com ele, e admira as pessoas que discordam de suas ideias. É viciado em informação e está sempre disposto a se reinventar.




Mariana Bonfim
ago 25th, 2009
Boa reflexão!