Ditadura Cultural
Escrito em 29. ago, 2009 por Geilson Volking | Tema: Mundo Livre
Não escrevi esse texto. Um mendigo que se diz profeta escreveu. Ele me falou que foi chamado ao pico do Cabugi por uma voz que vinha do céu. Essa voz lhe ditou este primeiro artigo de uma suposta Constituição para um país qualquer do mundo. Ele jura que não é para o Brasil, mas eu tenho lá minhas dúvidas. Afinal, pior do que está não pode ficar.
Art. 1:
I – A partir de agora é proibido jogar futebol, falar de futebol, pensar em futebol! Quem for pego correndo atrás desta coisa ridícula que é uma bola ou até mesmo fazendo bolinha de caraca para passar o tempo será severamente castigado, tendo que ler 50 livros de autores clássicos por ano, caso contrário, paredón. Todos os estádios serão explodidos, implodidos e completamente destruídos; quando muito se tornarão fossas, para onde será escoada toda a merda da cidade.
II – Acabou o carnaval e micaretas. Chegamos a conclusão que esse tipo de festa é a forma mais idiota de alienação, descontrole de natalidade por excesso de sacanagem e desculpa para quem quer queimar o foroboscoite. Homem vestido de mulher, mulher vestida de homem?! Santa paciência! Até onde sabemos, cu nunca foi esconderijo de cobra.
III – Está proibido o consumo de qualquer tipo bebida que altere o estado normal da mente: cachaça, conhaque, uísque, cerveja, vinho, mijo etc. Todas as instituições para dependentes de álcool terão suas portas fechadas, não sendo mais necessário esse tipo de serviço. Quem for pego enchendo a cara, conversando merda no meio da rua, pedindo dinheiro para tomar uma lapada, vai tomar uma lapada nas costas… uma não, 51 (em homenagem a caninha).
IV – Forró, axé, música sertaneja, pagode, funk pornográfico, hard core pirulito ou qualquer porra dessas direcionada ao mau gosto popular está decididamente proibido. Quem for pego tocando pandeiro, mesmo no quintal de casa, terá as mãos amputadas. As rádios só podem tocar música de boa qualidade. Quem reclamar dizendo que gosto não se discute e que tudo não passa de uma questão subjetiva, então que fique calado, não discuta. Quanto ao subjetivo, essa palavra está sendo inadvertidamente eliminada do dicionário.
V – A partir de agora é proibido qualquer tipo de fumo, inclusive cigarros. Ninguém mais morrerá de câncer no pulmão ou coisa do tipo. Quem já é viciado, ficará em quarentena até se livrar desse mal. O individuo irrecuperável, infelizmente, my brother, vai ter que se recuperar; esse negócio de concessão não existe mais. Aliás, a palavra concessão está sendo também inadvertidamente apagada do dicionário.
VI – As emissoras de televisão estão terminantemente proibidas de exibir novelas (sobretudo mexicanas), programas sensacionalistas (sobretudo Marcia Goldsmith), filmes americanos que só têem careta e peido (sobretudo os de Jim Carey). No lugar desses programas inúteis serão mostrados outros que não menosprezam a inteligência do cidadão.
VII – Os políticos passam agora a ganhar salário mínimo.
VIII – Quem for pego lendo Paulo Coelho será preso for falta de bom senso.
IX – Todas as igrejas passam a contribuir com o imposto de renda.
X – E estamos vendo a questão da internet. Tudo indica que essa proliferação de internautas não vai interferir em nada nas nossas decisões políticas, já que é impossível fazer uma passeata revolucionária sem se levantar primeiro da frente do computador.
Parágrafo único: a palavra inadvertidamente também está sendo inadvertidamente excluída do dicionário.
Geilson Volking
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Asfixia.
Roteirista de histórias em quadrinhos que nunca foram desenhadas; poeta mercenário, só faz poesia pensando no dinheiro da premiação dos concursos literários; professor pós-doutorado em começar tudo e não terminar nada; adora filmes que ninguém adora; morre de medo de descolar a retina. Só lê dentro de ônibus. Odeia o sol, só admite a cerveja. Rabisca contos. Foi premiado com o 1° lugar no concurso literário promovido pela Cooperativa Cultural Universitária da UFRN em 2007, categoria ficção. Foi agraciado com três menções honrosas em concursos de poesia do RN (2° edição do Concurso de Poesia Luís Carlos Guimarães em 2002 e 1° e 2° edições do concurso de poesia Zila Mamede 2004 e 2005). Cursou Filosofia, mas não concluiu. Fez Lavínia, mas quem concluiu foi a mãe. Acredita, como Voltaire, que “toda perfeição é um defeito”. Resumindo, é um sem futuro.



joseniz
ago 30th, 2009
Mais da metade da população brasileira vai pro paredão depois desta constituição.E o número de ditadores continua aumentando… Se o método Piaget não funciona, o jeito é usar o bom e velho método Pinochet.
Rudemangueboy
ago 31st, 2009
Acredito piamente que logo após essa ditadura ser implantada, a língua desse país será o lojban ou o Toki Pona, pois os falantes de português serão extintos.
Alien Zero
dez 20th, 2009
Estudem lojban, pois será util.