Quando nem os santos podem ajudar o homem, ele próprio busca forças para se reerguer
Escrito em 26. out, 2008 por Milena Azevedo | Tema: Sétima Arte
Por insistência de uma amiga que já havia lido Saramago antes, fui à biblioteca da UNISINOS e peguei Ensaio sobre a cegueira. Era 2002 e eu recém havia defendido a minha dissertação de mestrado. Tudo o que eu queria naquele momento era descansar a cabeça após dois anos de estudos puxados; no entanto, aquela luz branca que chega sem avisar e vai cegando aos poucos todos os que entram em seu campo de ação, confesso, arrebatou-me. Primeiro achei estranha demais a escrita do mestre luso – aquelas vírgulas quase infinitas e poucos pontos finais, gerando parágrafos enormes -, mas a história era tão original que me fez “enfrentar” esse desconforto inicial, e eis que o tenho como um dos melhores livros que li. Minhas impressões ao término do livro foram essas (contêm spoilers):
A cegueira da humanidade transforma a todos em iguais. A partir daí, regressam ao estado mais antigo de organização social: grupos de coletores-caçadores nômades (Saramago deixa transparecer a sua verve comunista). Quando o alimento passa a ficar escasso, o individualismo é o caminho adotado; individualismo esse que é contrastado pela ausência de nomes próprios para os personagens, os quais são batizados ora por sua profissão ora por um adjetivo que os caracteriza.”
O contraponto da história está na inversão do ditado, porque, para Saramago, quem tem olhos numa terra de cegos não é rainha, mas sim escrava da própria luz; o poder passa a ser daquele que tem uma arma (símbolo fálico/morte) e não daquela que poderia ajudar nas atividades cotidianas (símbolo feminino/vida).
Num mundo onde a imagem é tudo, o sentimento falta. É necessário, então, que as imagens pré-concebidas sejam apagadas e desconstruídas para que se desvele o seu verdadeiro conteúdo. É preciso “cegar” , também, as próprias imagens.
A cegueira branca – conduzida por uma “rainha” que, mesmo enxergando, percerbe-se cega, no entanto é uma líder real, uma vez que não fora imposta, mas sim, escolhida -, é um momento de regresso do ser humano a si mesmo, ao seu lado animal/selvagem; mas nessa “egotrip” há reflexão e aprendizado. Assim, a cegueira é vencida/curada quando as pessoas, tendo chegado ao estágio final da linha que separa o homem do animal, renascem/ressurgem ao (re)descobrirem a si e ao mundo ao seu redor (quando imagens, palavras, gestos e sentimentos entram em harmonia).”
Quando soube que a referida obra seria adaptada para o cinema por Fernando Meirelles, fiquei receosa. Tudo bem que Meirelles tem competência para tal, pois já provou seu valor com Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel, porém se tratava de um livro que me é caro em demasia.
Os meses foram passando, o filme ficou pronto. Meirelles mexeu nele umas quantas vezes, após os festivais em que Ensaio sobre a Cegueira esteve presente. Saramago aprovou (o único senão foi para o “cachorro das lágrimas”, que na visão do escritor era para ser menos fofinho). Eu fiquei mais aliviada, mas ainda assim não assisti ao filme.
Será que o corte final de Meirelles (e o elenco hollywoodiano) me dará aquele soco na boca do estômago que tomei do livro? Bom, só mergulhando na sala escura para ver.
Milena Azevedo
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Asfixia.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Discípula de Rilke e Eisner, prefere os textos simples e eficazes, sem muito floreio-vazio-pseudointelectualóide. Aprendeu com Heródoto e com Burroughs a relatar o que vê e ouve e a inventar o que não consegue enxergar.




Fernando Quirino (Mestre Zen)
nov 3rd, 2008
Comigo foi o contrário. Assisti ao filme, mas não li o livro. Pelo que pude notar da sua crítica ao livro, todos os elementos se encontram no filme, talvez com um detalhe a mais ou a menos, mas está tudo lá. Claro que sua “visão” do livro não seja a mesma de Meirelles e aí um desconforto incial, mas o âmago da questão continua o mesmo… da cegueira social.
Milena Azevedo
nov 3rd, 2008
Opa, Fernando, legal ter um comentário de quem já viu o filme. É lógico que cada pessoa sente o livro de um jeito, e um ponto forte de uma boa adaptação é manter a idéia principal da obra, mesmo que algumas situações do enredo sejam modificadas. Pode ter certeza que não verei o filme às cegas.
Milena Azevedo
jan 13th, 2009
Ah, finalmente assisti ao filme! E quer saber? Eu gostei. Só fiquei desapontada em se tratando dos diálogos (que no livro são riquíssimos) e da relação que é travada entre o velho com a venda nos olhos e a prostituta, que no filme só acontece praticamente quando eles já estão na casa do médico. Tirando isso, Meirelles fez um bom trabalho. Todo o clima angustiante do romance foi passado para o filme.