ENTREVISTA: MIKE DEODATO
Escrito em 06. mai, 2009 por Fernando Aureliano | Tema: Entrevistas
Ele ama quadrinho, adora cinema e curte Caprica. Acredita que ainda está “do outro lado”. Da Paraíba para o mundo! Conheça aqui um pouco mais sobre Mike Deodato e saiba o que ele acha da internet, cinema e mercado. Como tudo isso influencia seu trabalho e o que mudou nos últimos anos.
FERNANDO: Deodato, você tem um notebook em cima de sua mesa de desenho, dois endereços de emails, twitter, deviantart, blogs, participa de uma comunidade de quadrinhos, tem um canal no youtube e, o pior de tudo, é quadrinista. Confesse, você é geek?
DEODATO: Masomeno… gosto das facilidades da internet, mas sou meio desleixado: posto pouquíssimo no Twitter e só atualizo meu blog de vez em quando, mas respondo todos os emails de fãs que recebo. Um amigo cuida de meu deviant e um outro de minha comunidade no Yahoo. O negócio é que meu tempo é muito curto e se eu demorar muito na net o trabalho sofre.
FERNANDO: Você já está no mercado de quadrinhos a bem mais de 10 anos, ou seja, já passou por diversas fases que ocorreram nesse mercado. Houve uma fase melhor ou pior que a outra? Alguma crise no mercado de quadrinhos que lhe atingiu de alguma forma?
DEODATO: Só fui atingido uma vez, em 99, acho, mas foi por causa da irresponsabilidade de um editor que me fez retornar um trabalho já com contrato assinado e, como eu havia recusado vários outros trabalhos para me dedicar a este, terminei ficando quase três meses sem trabalho. Fora isso tem sido uma tranquilidade.
FERNANDO: Alguns artistas nacionais, como Mozart Couto, já fizeram trabalhos tanto para o mercado Europeu quanto para o mercado Americano. Você nunca trabalhou para o mercado europeu por que nunca se interessou ou por que você acha que seu estilo não é compatível com este nicho do mercado?
DEODATO: Tenho alguns trabalhos no mercado europeu, mas nada significativo. Tenho vontade de fazer mais coisas pra lá, mas agora só depois de 2014, que é quando meu contrato com a Marvel termina. Gostaria de fazer Tex, só pra experimentar e alguma coisa pra Humanóides, algo autoral.
FERNANDO: Vários profissionais da área, como @BRIANMBENDIS, @Agent_M, @JoeQuesada e até mesmo a @Marvel tem twitter. Qual a impontância da mídia digital na sua interação com os leitores e profissionalmente? Afinal não é uma questão de divulgação, pois isso você tem de sobra através da própria Marvel. O que gera pra você toda essa necessidade de estar conectado?
DEODATO: Pra mim tem o mesmo significado das cartas que recebia no tempo em que era fanzineiro, que é a opinião do leitor. A internet tornou tudo mais fácil e imediato. No tempo da Mulher Maravilha eu tinha que esperar meses até saber de qualquer coisa. Agora eu recebo críticas e elogios no mesmo dia em que a revista vai às bancas.
Gosto das facilidades da internet, mas sou meio desleixado (…)
FERNANDO: Você é conhecido pela simpatia, bom humor e respeito pelos fãs. Esse seu lado que faz você ser tão respeitado e admirado no meio já te gerou algum problema, alguém já passou dos limites com você?
DEODATO: Não, nunca. Sempre tive um bom relacionamento com fãs. Acho que porque, mesmo com tantos anos na estrada, ainda me acho do “outro lado”, ainda me considero um fã de quadrinhos também.
FERNANDO: Quando você vai à convenções no exterior, o que vemos são filas e mais filas com pessoas na expectativa de conseguir um autógrafo seu. No Brasil você é menos assediado? E em João Pessoa, você consegue ter uma vida anônima?
DEODATO: Dá sim pra ter uma vida tranquila e anônima. Quadrinista é mais conhecido pelo trabalho do que pela imagem pessoal, então quando me veem na rua, o máximo que provoco é medo de minha cara feia, nada de mais.
Uma arte digitalizada pode ser reproduzida infinitamente, mas minha arte original é única.
FERNANDO: A tecnologia está gerando cada vez mais possibilidades, inclusive a nível artístico. Você acha que um dia trocará seu lápis e papel por uma Cintiq?
DEODATO: Eu já uso caneta digital para fazer retoques e layouts, mas eu vou sempre preferir o papel. Uma arte digitalizada pode ser reproduzida infinitamente, mas minha arte original é única.
FERNANDO: Hoje, você está trabalhando com agente?
DEODATO: Sou agenciado pela Glass House Graphics.
FERNANDO: Qual é seu relacionamento com os outros artistas da Marvel? Existe “Happy Hour” quando você pinta por lá, ou são relacionamentos estritamente profissionais?

DEODATO: Eu sou muito caseiro… barzinhos, boates, shows, bebida e afins não são a minha praia, daí que quando me convidam pra uma happy hour num barzinho por lá, eu dou uma aparecida bem rápida e caio fora. Tem uns caras que eu gosto mais e tenho mais intimidade, como o Bruce Jones, Axel Alonso e Paul Gulacy, mas no geral fica só nos encontros em convenção mesmo, ou por email.
Nunca achei que os nerds dominariam o mundo, porque quem vai fazer isso sou eu!
FERNANDO: Dave Gibbons fez o storyboard do filme de Watchmen. Você já recebeu algum convite pra desenvolver esse tipo de material para algum filme ou gostaria de tentar?
DEODATO: Nunca fui atrás porque não tenho vontade. Já fiz pra publicidade. Meu negócio é quadrinho mesmo. É muito mais difícil, paga muito menos, mas eu gosto, fazer o que, né?
FERNANDO: Você é caseiro. Qual é seu “hobby”, além de passar o dia desenhando os personagens que você admirou durante toda a sua infância?
DEODATO: Karatê, séries de tv ( 24, Caprica, Lost ) cinema, viajar, namorar (com a esposa, claro!).
FERNANDO: Quanto a cinema, você tem acompanhando os filmes baseados em HQs, esse mercado que acabou se tornando um dos mais lucrativos de Hollywood? Alguma expectativa cinematográfica para este ano?
DEODATO: Tô curioso pra ver Kick Ass e Jonah Hex.
FERNANDO: Qual a sua adaptação preferida dos filmes de quadrinhos já lançados até agora e por quê?
DEODATO: 300 de Esparta. Porque é fiel ao original e é uma verdadeira obra de arte, quase uma pintura em movimento.
FERNANDO: Algum dia você chegou a imaginar que os nerds dominariam o mundo? Você se considera um deles?
DEODATO: Nunca achei que os nerds dominariam o mundo, porque quem vai fazer isso sou eu! (Risada macabra) Se ser um nerd significa colecionar gibis e não gostar de farra, então sou sim, com orgulho.
FERNANDO: Como está o “Mundo lá fora”? O mercado de quadrinhos americanos anda de “vento em poupa” ou teve alguma oscilação nessa década? De onde você está, você vê o mercado aumentar ou diminuir?
DEODATO: Vejo aumentar. O mercado de quadrinho americano encolheu muito, devido a vários fatores, mas só tem crescido nos últimos anos. Resultado de uma excelente visão de marketing por parte da Marvel que conseguiu sair de uma situação de falência para um domínio de quase metade do mercado.
FERNANDO: Você acha que esse contato mais próximo entre autores e leitores que a internet está promovendo vem influenciando os autores de alguma forma? O que você acha que mais mudou nos últimos anos? A mente dos autores está se abrindo e se modificando mais rápido?
DEODATO: Só posso falar por mim. A internet não me afetou desta forma, mas me propiciou uma infinidade de opções, de referências e comunicação, o que tornou meu trabalho muito mais fácil.
(…) Ouvir eles dizerem que amam meu trabalho é melhor que qualquer prêmio.
FERNANDO: Você que está “lá dentro”, rola boatos sobre possíveis filmes, possíveis edições… Você se sente mais próximo destes outros meios de produção cultural que estão em paralelo com os quadrinhos, ou o quadrinho é óleo e cinema é àgua quando o assunto é produção?
DEODATO: Me sinto mais próximo sim. Acho que são artes parecidas, mas prefiro ficar na arte que me dá mais prazer que é quadrinho mesmo. Já fiz storyboard, design pra bonecos, desenho pra
publicidade, desenho pra videogame, etc, mas no fim, quadrinho é a arte que me raliza.
FERNANDO: Você teve aulas com seu pai quando criança e adolescente? Qual a influência do trabalho dele na sua obra?
DEODATO: Painho me ensinou muita coisa de desenho, mas a sua melhor contribuição, acho, foi a de me “apresentar” aos seus ídolos, que se tornaram meus também: Will Eisner, Hal Foster, Alex Raymond, Burne Hogart e tantos outros. Ele me fez enxergar a genialidade dos mestres do passado desde que eu era bem jovem e isso foi decisivo na minha formação como desenhista.
FERNANDO: Bonecos e jogos. Falando nisso, você coleciona alguma coisa fora quadrinhos?
DEODATO: Por enquanto só coleciono dívidas!
Falando sério, sempre fui um colecionador de quadrinhos e só. Não tenho o mesmo cuidado de antigamente e parei de comprar de tudo faz tempo, mas devo ter umas dez mil revistas.
Quero continuar melhorando e experimentando em tudo que diz respeito à minha arte.
FERNANDO: Você ja matou algum desejo nerd reprimido na infância?
DEODATO: Faço isso toda vez que vou à uma convenção e converso com um dos meus ídolos.
Ouvir eles dizerem que amam meu trabalho é melhor que qualquer prêmio.
FERNANDO: O que você quer ser quando crescer?
DEODATO: Hal Foster, Frank Frazetta, Joe Kubert… eu sonho alto.
FERNANDO: O que se pode esperar de Mike Deodato para os próximos anos?
DEODATO: Marvel, Marvel e mais Marvel! Renovei meu contrato até 2014!
Quero continuar melhorando e experimentando em tudo que diz respeito à minha arte. Eu apenas comecei.
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Fernando Aureliano
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Asfixia.
Mutável, ambivalente e perturbado. Diretor de animação e ousado. Adora cachorros e cerveja; usa Apple e não vive uma semana sem ir ao bar jogar conversa fora; não sabe mais escrever a mão e ama a música; é ateu e não tem papas na língua. É a típica pessoa que, ou você ama, ou você odeia. Não gosta de quem concorda com ele, e admira as pessoas que discordam de suas ideias. É viciado em informação e está sempre disposto a se reinventar.




Renato
mai 6th, 2009
Estou me lambusando aqui com essa entrevista =D
joseniz
mai 6th, 2009
Gostei muito da entrevista!
Buba
mai 7th, 2009
Nunca vi ele aqui por João Pessoa. Mas se vir, vou dar um tapinhas nas costas e dizer: “Cê é foda, man!”. =D
Tati Viana
mai 7th, 2009
Aaah! Ficou muito massa!
Deodato realmente é uma figura… “Painho” foi ótemo!
Muito bão, Fernando, bão mermo!
Marcelo Henrique
mai 7th, 2009
Tive a oportunidade de conseguir um autógrafo pessoalmente dele e ele é tudo que dizem que é. Deodato é pau de dar em doido! Parabéns pela entrevista, ficou nota 10!
Luma Dias
mai 7th, 2009
Finalmente uma entrevista com o Deodato que não faz as mesmas perguntas de sempre. Tá de parabéns!
Milena Azevedo
mai 7th, 2009
Eita que entrevista boa! Parabéns, Fernando, por fazer mais gente conhecer um pouco mais desse grande artista que é Mike Deodato Jr.
Assim como Tati, adorei quando o Deodato falou “painho” e quando ele assumiu que é nerd/geek e que curtiu Caprica. Só posso dizer uma coisa mais:
So say we all!
R.M.A.L.
mai 25th, 2009
Olá, Fernando. Parabéns pela entrevista. Gostei muito. Sou desenhista, psicanalista (não atuante) e professor em João Pessoa e gosto de ver e ler sobre desenhistas. Parabéns mais uma vez!
Fernando Aureliano Reply:
maio 26th, 2009 at 7:41 am
Obrigado @R.M.A.L., O Deodato é uma pessoa fantástica e foi um prazer fazer essa entrevista com ele, alias, adoro todo o pessoal de JP e curto ir aí passar uns dias de vez em quando, terrinha boa essa aí viu?