Era uma vez um heroi negro…
Escrito em 05. nov, 2009 por Milena Azevedo | Tema: Resenhas, Sétima Arte
Mal os créditos aparecem na tela, a gente ouve um zumbido percorrer as caixas de som do cinema. Na primeira cena, temos o prólogo, na qual o Mestre Alípio fala ao seu pequeno pupilo sobre o besouro cascudo, um inseto que a ciência não entende como consegue voar, pois é pesado e as suas asas são muito pequenas. Logo depois, o futuro heroi escolhe o seu nome de batismo na capoeira: Besouro.
Partindo dos contos do livro Feijoada no Paraíso, de Marco Carvalho, o diretor João Daniel Tikhomiroff narra, com licenciosidade poética, a trajetória de Manuel Henrique Pereira, um lendário capoeirista baiano, conhecido como Besouro Cordão de Ouro, numa das produções mais caras do cinema nacional, com direito a efeitos especiais de ponta e coreografias assinadas por Hiuen Chiu Ku (também conhecido como Dee Dee), coreógrafo de O Tigre e o Dragão, Matrix e
Kill Bill.
Besouro: nasce um heroi (2009) se passa no Recôncavo Baiano, no ano de 1924, quando Mestre Alípio (Macalé), mal visto pelo Coronel Venâncio (Flávio Rocha) por suas ideias de conscientização negra e por fazer da capoeira uma bandeira de resistência à opressão branca, é assassinado. Besouro (Ailton Carmo) se culpa por não ter estado ao lado de seu mestre para defendê-lo, mas o mestre moribundo diz a ele que dê continuidade ao seu trabalho para que a luta tenha início. E então começa toda a preparação para a formação do heroi, mostrando que cada entidade do candomblé está ajudando-o nesse processo.
Com uma fotografia que exalta as belezas naturais da Chapada Diamantina, mais especificamente do vilarejo de Xique-Xique do Igatu, sob responsabilidade de Enrique Chediak e do olhar experiente de Cláudio Amaral Peixoto, que assinam a direção de fotografia e a direção de arte, respectivamente, Besouro veio mostrar que o Brasil pode sim fazer filmes de fantasia e aventura, de forma profissional, como afirma Vicente Amorim, um dos produtores: “usar uma técnica nova, por si só, não é um grande mérito. O mérito é saber usar isto no contexto de uma história criada para emocionar, divertir
e fazer o espectador refletir”.
A narração de Milton Gonçalves e a música tema, interpretada por Gilberto Gil, emolduram o filme, exacerbando a questão da identidade étnica, a qual norteia toda a película.
Milena Azevedo
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Asfixia.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Discípula de Rilke e Eisner, prefere os textos simples e eficazes, sem muito floreio-vazio-pseudointelectualóide. Aprendeu com Heródoto e com Burroughs a relatar o que vê e ouve e a inventar o que não consegue enxergar.



