[ESPECIAL MARVEL] Os dilemas de um nobre heroi
Escrito em 20. ago, 2009 por Milena Azevedo | Tema: Especiais, HQs
“Não nos é permitido saber se lograremos êxito ou não. Não há desonra em falhar. Só existe uma vergonha definitiva: a covardia de não ter tentado.”
“Quem… O que é você?”
“Me chamam de Surfista Prateado.”
Foi com esse diálogo que Stan Lee revisitou o personagem mais nobre e honrado da história da arte sequencial, após vinte anos de sua publicação em título próprio. Para que o presente de aniversário fosse de duas vias – ou seja, tanto para o heroi quanto para os leitores –, o velho Stan convidou o aclamado quadrinista francês Moebius para produzir a graphic novel batizada de Parábola.
A história do Surfista Prateado já é por si só curiosa, pois foi um personagem que nasceu como um simples co-adjuvante e tomou proporções épicas, contando com roteiros e diálogos caprichados, tornando-se o primeiro super-heroi existencialista.
Era 1966 e Jack Kirby e Stan Lee procuravam um adversário poderoso para enfrentar o Quarteto Fantástico. Daí surgiu Galactus. Porém, Kirby acrescentou um arauto que fazia companhia ao “Devorador de Mundos”, arauto esse que logo foi chamado de “Surfista Prateado”.
Durante a década de 1960, os super-herois da Mavel vendiam muito bem. Era um
período propício à criação de novos herois e títulos. Por isso, em 1968, Stan Lee cogitou criar uma revista com aventuras solo desse nebuloso personagem que era o Surfista Prateado. Quem aceitou dar vida ao personagem foi ninguém menos do que o lendário John Buscema, saindo de um ostracismo para reencontrar a fama e deleitar seus fãs. Então, em agosto de 1968, chegava às bancas Silver Surfer # 1, contando a história de Norrin Radd, um habitante do planeta Zenn-la, fiel e apaixonado por sua noiva Shalla Bal, que amava os tempos remotos em que a população de Zenn-la não vivia à total mercê da tecnologia. Norrin era contrário à passividade e à pacificidade na qual o seu planeta estava imerso. Em Zenn-la tudo era calmo, tranqüilo e perfeito. Não havia exército, não havia armas, o povo já não se lembrava mais de como lutar porque vivia no e para o hedonismo. Eis que Norrin desabafa a sua amada:
“Não posso mais suportar a visão de meus semelhantes… Desperdiçando seus dias na busca de prazeres infinitos e vazios! Até nossos conhecimentos são herdados! Uma vida inteira de ensinamentos é absorvida em meros momentos no interior dos hipnocubos letivos. E nem sequer precisamos desejar nada… pois podemos criar qualquer coisa, sem nenhum ônus, usando o cibermaterializador. Mas a maior farsa é o nosso parlamento! Nossos mais ilustres estadistas desperdiçam todo o seu tempo debatendo com grande solenidade… mesmo sabendo que sua tagarelice é inútil… uma vez que computadores governam nossa civilização. Porém, fui uma voz solitária e perdida… que ninguém queria ouvir.”
Norrin estava temeroso sobre algum futuro ataque ao seu planeta natal, pois sabia que ninguém iria reagir e todos seriam presas fáceis do inimigo. Alertou toda a população em vão, pois não lhe davam a menor atenção. Seus temores se confirmam quando Galactus chega a Zenn-la para devorar todo o planeta, em sua constante busca para aplainar sua eterna fome. Para não deixar os seus sucumbirem de forma tão ignóbil, e para não ver morrer o seu grande amor, Norrin vai até Galactus e firma com este um pacto: estava disposto a se sacrificar por Zenn-la, tornando-se o seu arauto, viajando com ele por longínquas galáxias e o ajudando a escolher os planetas sem nenhum vestígio de vida, para serem devorados. Dessa forma, morre Norrin Radd e nasce o Surfista Prateado.
Tudo corria na mais completa paz e solidão até que o Surfista conduziu Galactus ao
planeta Terra. Ao adentrar em nosso planeta, percebeu que havia vida em abundância por aqui. Alertou o seu mestre do erro, mas Galactus insistia em devorar o novo planeta. Com isso, pela primeira vez a criatura resolveu enfrentar o seu criador, defendendo a todo custo o direito à vida humana. Com a ajuda do Quarteto Fantástico, expulsou Galactus da nossa galáxia. Como punição, Galactus condenou o Surfista Prateado ao exílio na Terra, impedindo-o de voltar a Zenn-la e rever Shalla Bal. Assim, tem início as mais belas e filosóficas histórias de um semideus que quer ajudar a todos, mas é incompreendido e tido como vilão. O título do Surfista Prateado seguiu até agosto de 1970, com 18 números, mas teve que ser cancelado. Essa fase clássica da “Sentinela do Espaço” é bastante introspectiva e rendeu reflexões como essa abaixo:
“Seria o próprio cosmo uma centelha de imaginação… acesa por um pensamento aleatório e capaz de ser extinta pela vontade? Será que a realidade não passa de um sonho? E se for… quem será o sonhador? Talvez… talvez seja melhor que nunca conheçamos essas respostas.”
Stan Lee sabia que o personagem requeria tramas mais elaboradas e relutou muitos anos em deixar que outro roteirista o assumisse, e até mesmo ele só escrevia histórias quando se sentia inspirado. Mas há tramas muito boas sob a batuta de Jin Starlin, Steve Englehart e J.M. DeMatteis. E por falar em Steve Englehart, foi com ele que finalmente o Silver Surfer conseguiu o perdão de Galactus e a sua liberdade de vagar pelo universo:
“O espaço é infinito. E uma infinidade de estrelas nasce e morre dentro dele… tornando-se vermelhas, azuis, douradas e brancas, de encontro à noite sem fim… e, ainda assim… algo prateado percorre suas vastidões… um ser… um único e solitário ser… finalmente… livre.”
A história LIVRE (FREE) foi publicada originalmente em julho de 1987, mas os
leitores brasileiros só puderam lê-la em 1991, no número 33 de Grandes Herois Marvel, da editora Abril.
A Abril também foi responsável por publicar boas graphic novels do Surfista, como Os Escravistas e O Juízo Final, além de Parábola, citada no início desse texto; embora tenha pisado
na bola com os crossovers Surfista Prateado e Super-homem e Surfista Prateado e Lanterna Verde, que, na boa, ninguém deveria perder seu tempo lendo essas abominações ridículas que envergonham o referido herói – aliás, há uma fase cômica do Surfista, inédita no Brasil, que durou algumas edições nos anos de 1990 (se não me falha a memória), HQs essas que não tive coragem de conferir.
Meu primeiro contato com a “Sentinela do Espaço” não foi nos quadrinhos, mas sim através da personagem de Richard Gere no filme A força do amor (Breathless, 1983), que tal como o ator, era um fã do Surfista Prateado. Eu assisti a esse filme na faculdade, por volta de 1997, e fiquei me perguntando por que
nunca havia lido nada dele. Eu me lembrei de que, quando criança, tive uma daquelas figuras de plástico da Gulliver com o Surfista, na cor azul, entre os meus brinquedos, mas não sabia quem era ele. Simplesmente me encantou o fato de saber que havia um heroi que fazia reflexões filosóficas enquanto cruzava o espaço em sua prancha. De lá pra cá, procuro comprar todas as HQs que trazem alguma história do semideus pensador.
Foi através do dentista e quadrinista potiguar Williandi que consegui duas edições comemorativas: Silver Surfer # 50 e Silver Surfer # 100. A edição norte-americana de número 50 tem roteiro assinado por Jin Starlin e arte de Ron Lim e traz uma história
chamada Deeply Burried Secrets! (Segredos Profundamente Enterrados!), na qual o vilão Thanos entra na mente do Surfista e o faz relembrar atos não muito éticos de seu pai, o cientista Jartran Radd. A capa dessa HQ de 1991 tem o seu logo e o desenho do Surfista em tons de prata. Já a centésima edição, que data de janeiro de 1995, traz na capa um holograma do Surfista e mostra um novo embate entre a “Sentinela do Espaço” e o vilão-demônio Mephisto, que atiça o desespero e a revolta dele ao mostrar uma imagem de seus pais mortos e lembrar ao semideus que:
“You pose and play at being the hero… but the entirety of your life has been a fraud. No substance. You see? You were never anything more… than a hollow man.” (Você posa de heroi, mas toda a sua vida não passou de uma farsa; uma vida vazia. Você percebe isso? Você nunca foi nada além de um homem sem sombra.”)
O roteirista da edição de número 100 é o Ron Marz, que tentou retomar o angustiado
Surfista de Stan Lee, misturado ao Surfista mais aventureiro de Steve Englehart. Ron Marz foi o autor da história Dualidade Cósmica, que a Mythos publicou em 2001, no Brasil, com desenhos de Cláudio Castellini. E tomando como inspiração o traço desse desenhista, o artista plástico e quadrinista potiguar Wanderline Freitas me presenteou com uma linda tela em acrílico. Wanderline ainda me vendeu formatinhos do Surfista, tirados diretamente da sua coleção. Sou enormemente grata a ele.
Quanto à adaptação das aventuras do Surfista para os cinemas, a Fox cogitou um filme solo, com roteiro do J. Michael Straczynski e uma possível direção de Alex Proyas (Presságio). No entanto, tudo indica que esse projeto morreu. Isso acabou sendo uma notícia boa, pois a Fox tem como padrão fazer filmes para toda a família, e Straczynski faz tempo que perdeu a mão.
Em 2008, a Panini relançou as seis primeiras HQs do Surfista Prateado, em cores, dentro da coleção Biblioteca Histórica Marvel. Eu ainda não adquiri esse volume, pois tenho todas essas histórias em P&B, que saíram pela Mythos. Também não li HQs mais recentes, como as minisséries Surfista Prateado: Réquiem e Invasão Secreta. Confesso que não tenho curiosidade sobre o que os roteiristas estão aprontando para reinventar todo o Universo Marvel e saber quem é skrull e quem não é. Não tenho muita paciência para hiper mega sagas. Prefiro histórias com substância. Gosto quando um heroi se auto-questiona e, com um propósito, procura mudar a realidade que o cerca. Não basta ter super poderes, tem que saber o que fazer com eles e usá-los para uma boa causa. O heroi tem que ser coerente, mesmo que tenha atitudes politicamente incorretas, como a Mulher-Maravilha, que matou Maxwell Lord sem remorso algum, para salvar milhões de vidas.
O Surfista Prateado, junto com Batman, Thor e Wolverine, são os meus herois
preferidos. São personagens com as quais me identifico e gosto de dialogar.
Para finalizar esse texto, eis um poema de minha autoria, inspirado na trágica vida do Surfista Prateado.
Sentinela
Sou aquele sonho perdido
o abraço esquecido
no pensamento sentido
O futuro engatinhando
no sol poente regressando
ao leito adormecido
Sentinela imortal
guardião existencialista
do espaço sideral
Ao lado do oriente desperto
se renasci, não sei ao certo
serenidade nunca antes obtida
Ao chamado de uma voz cega
viajei por longas eras e me
encontrei naquelas lágrimas ternas
Hoje, mudo, grito ao papel
o desejo incomunicável
voltei a ser estrela
surfando no espaço interplanetário
Milena Azevedo
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Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Discípula de Rilke e Eisner, prefere os textos simples e eficazes, sem muito floreio-vazio-pseudointelectualóide. Aprendeu com Heródoto e com Burroughs a relatar o que vê e ouve e a inventar o que não consegue enxergar.




joseniz
ago 21st, 2009
Gostei do texto,dá vontade de chorar rsrsrsr lembrei da tiração de onda de sérgio aragonés e mark evanier em sérgio aragonés massacra marvel que na história entitulada o chorão cósmico o surfista pergunta ao galactus vai devorar a terra e ele fala que não come mais porcarias porque o colesterol dele aumentou.
O Surfista é um ótimo personagem mesmo, acho ele bem mais interessante que o quarteto fantástico. Li parábola mas gostei mais de ua história curta com o surfista e thanos conversando sobre a morte e nisso o surfista acaba sendo responsável pela morte de um planeta devido ao seu biotipo estranho as pessoas morrem doentes, pode ser esta que vc mencionou não estou lembrado mas ela é muito boa.
Milena invasões Skrulls à parte recomendo você ler réquiem. É uma ótima história,não vou falar muita coisa sobre ela senão e spoiler atrás do outro, mas o J. Michael Straczynski acertou a mão na história do surfista com uma história bem humana diferente do que ele fez com o aranha.
Se este filme rolasse ia ser uma boa notícia, ainda mais com Alex Proyas na direção, ele fez uma das melhores adaptações de quadrinhos ao fazer o filme do Corvo. A única coisa que assusta é o nome Fox envolvido, depois daquela aparição do surfista, o galactus sem saia e balde na cabeça da forma como foi mostrado no filme do quarteto e não duvido que os executivos da fox fariam a mesma coisa que fizeram com o filme do Wolverine.
Milena Azevedo
ago 24th, 2009
Ah, esse apelido de “chorão cósmico” que deram para o Surfista é inglório. Ele tem um por que de se lamuriar.
Essa história que eu citei do encontro entre Thanos e o Surfista não é essa que você mencionou, Joseniz. Embora eu já tenha lido, não me recordo em qual revista está.
Bom, eu tenho “medo” do Straczynski atual, mas se você falou que Réquiem é legal, irei lê-la.
Tadeu Ferreira Oliveira
set 16th, 2009
Deu a té vontade de voltar a comprar HQ