O cinema não é a casa da Mãe Joana
Escrito em 28. jun, 2009 por Milena Azevedo | Tema: Comportamento, Crônicas
Eu sou cinéfila, mas ir com regularidade ao cinema está um tanto quanto complicado. O empecilho nem é tanto o valor do ingresso, mas sim a falta de noção e educação das pessoas.
Costumo sair de casa já com o filme e o horário da sessão em mente, evitando ler comentários de terceiros sobre a película escolhida – tomo essa medida para evitar algum spoiler indesejado ou um julgamento antecipado que venha a prejudicar minha apreciação.

Já na fila, vem o primeiro desconforto. Fico observando as pessoas que escolhem os filmes pelos cartazes ou fazendo “uni-duni-tê”. Geralmente são essas pessoas que saem da sala após meia hora de exibição. Vi muita gente saindo no meio da sessão de alguns filmes, como: O segredo de Brokeback Mountain, 300 e Watchmen.

O segundo desconforto vem quando ao meu lado se senta alguém que vem fazer piquenique no cinema. Acho incrível como o ser humano pode se fartar de tanta comida durante uma ou duas horas. Uma pipoca e um refri até que vai, mas tem gente que leva praticamente um banquete para a sala escura. A gente fica ouvindo o barulho irritante do mastigar, da deglutição e da eliminação dos gases. Esses, com certeza, são aqueles que saem dizendo que não entenderam patavina do que viram.
O terceiro já é mal estar. Dá-se quando um adulto quer assistir a um determinado filme e está acompanhado de uma criança. Ele escolhe, claro, a versão legendada (e nem se importa se a criança vai entender ou gostar). Passa o filme explicando ao “baixinho” o que está acontecendo ou, pior ainda, fica narrando em voz alta todas as falas. O mané não se toca que está perturbando. Quando alguém reclama e pede silêncio, ele responde logo com um xingamento. E se a criança chora, tem uns que nem pra se levantar e comprar uma água ou qualquer agrado, e assim todos aturamos uma trilha sonora indesejada.

Se a gente for mencionar a falta de educação, então, aí é que tem pano pra manga. O pessoal põe os pés nas poltronas, cola chiclete, joga pipoca nos outros, comenta cenas em voz alta, entre outras coisas mais picantes.
Embora eu evite os horários de maior movimento, geralmente um desses desconfortos termina por quebrar um pouco o encanto do meu ritual de ir ao cinema.
Eu só quero exercer o meu direito de poder assistir ao filme, pelo qual eu paguei a entrada inteira, sem nenhum subterfúgio para conseguir uma carteira de estudante falsa, em paz.
Há pessoas que tem o cinema como um passatempo qualquer. Pra mim, a projeção de 24 fotogramas por segundo é muito mais do que isso. É arte. E eu a trato com toda a dignidade que ela merece, seja um blockbuster ou um cult movie.
O ser humano leva pra rua o que é de casa, por isso hoje, mais do que nunca, costumes mesquinhos e individualistas imperam que é uma beleza. Conviver harmonicamente em sociedade está cada dia mais difícil.
Para evitar estresse, prefiro baixar e/ou alugar filmes e assisti-los no conforto do meu lar. Agora, só vou ao cinema quando o filme realmente pede tela grande.
Milena Azevedo
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Asfixia.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Discípula de Rilke e Eisner, prefere os textos simples e eficazes, sem muito floreio-vazio-pseudointelectualóide. Aprendeu com Heródoto e com Burroughs a relatar o que vê e ouve e a inventar o que não consegue enxergar.




Fernando Aureliano
jun 28th, 2009
Já passei por todas estas situações, e é nessa hora que me pergunto onde deixei a minha bazuca social. People sucks!!
Milena Azevedo
jun 28th, 2009
Pois é, Fernando, ainda hoje me lembro da sua história sobre a aventura que foi assistir a Homem-Aranha 3.
E como já aconteceu muita coisa, uma delas foi sentar entre um casal de namorados que ficava passando sorvete, água e ainda queria estar de mãos dadas ao longo do filme. O detalhe é que eu já havia mudado de assento duas vezes e trocar de lugar pra ficar no final da fileira não dava. Se eles queriam um lugar melhor, para sentarem juntos, tivessem saído de casa mais cedo. Ficaram fazendo só de pirraça a farra, e eu pra dar o troco permaneci no meu lugar (mas ai deles se tivesse caído sorvete ou água na minha roupa).
nirlando
jun 30th, 2009
É por essas e por outras, que deixei de ir ao cinema há muito muito tempo! E olha que houve um tempo em que cheguei a assistir 3 filmes num só dia, em cinemas diferentes!!!!
Milena Azevedo
jun 30th, 2009
Amigo Nirlando, salve! O cinema também já foi o meu segundo lar (mas se deixassem a gente morar dentro de um, seria o primeiro, com certeza). Hoje ficou nisso que comentei no texto.
E seguimos recebendo mais comentários dos que estão saturados da falta de educação dos outros, principalmente no cinema.
Leonarod
jul 1st, 2009
No tempo em que se podia, eu ficava na sala de exibição para assistir a duas sessões seguidas. O público tinha um percentual menor de néscios e beócios.
Hoje não vou mais ao cinema com regularidade, e, a exemplo de não assistir a televisão aberta, isso me deixou bem menos estressado e muito satisfeito de conviver relativamente pouco com a pauperização de espírito alheio.
Milena Azevedo
jul 2nd, 2009
O que dizes, Leonardo, é uma verdade verdadeiríssima. Quando a gente convive menos com alguns seres humanos um sentimento tão bom nos invade. É uma paz inexplicável.
nirlando
jul 2nd, 2009
É isso aí Milena! “O inferno são os outros”! Resultado: nos voltamos para o lazer caseiro (TV a cabo com centenas de filmes o dia todo, DVDs,Blurays, sites de realionamento onde você encontra a sua turma, Twitter (onde você expõe suas ideías e lança seus protestos, se for o caso!) E ainda sabe das últimas notícias praticamente na hora em que estão acontecendo)E por último e não menos importante: com a Internet você se livra da nossa mídia vendida e manipuladora!!É só procurar as fontes confiáveis!!
(Por issos essa mesma mídia (principalmente jornais e revistas) está estrebuchando com suas vendagens cada vez mais baixas! O Google está vindo este ano com o seu novo programa
“Wave” (lieralmente, uma onda que vai levar de roldão muita coisa por aí!)
As grandes lojas on-line (Submarino, Americas,Wall-Mart estão acabando com os pequenos negociantes, a a gigante Amazon está vindo aí)
Um exemplo: “Batman crônicas,Vol 02″ estava sendo vendido na livraria aqui em Belém,por R$ 60,00!!! Mandei buscar no Submarino por 42,00 e com frete gratis! E o Album chegou em 3 dias! Quer coisa melhor??? Um tempo novo já vem se anunciando ha algum tempo! Quem não se adaptar, vai ficar a ver navios! heheh Abração!