O diabo na rua, no meio do redemoinho
Escrito em 14. nov, 2008 por Fernando Aureliano | Tema: Crônicas
Sempre detestei literatura regional, achava ridículo. Para mim, a arte sempre teve que ser universal e independente da cultura onde é desenvolvida. Tendo isso, talvez você possa pensar que depois que eu li o Grande Sertão: Veredas, eu tenha mudado de ideia, mas na verdade não. Depois que li Guimarães Rosa minha opinião se reafirmou. Mas eu descobri uma coisa nova, eu vi coisas que eu não conhecia. Este autor é universal, e neste livro, o sertão é aquilo que eu acredito que tenha que ser em uma história, como em qualquer outra história: Um plano de fundo; um lindo cenário onde vemos o tema central que vemos em toda grande literatura: O homem. O tema mais curioso, assustador e impressionaste de todas as histórias.
…Sertão é sem lugar. Sertão é o sozinho. Sertão é dentro da gente.”
Riobaldo, em sua longa narrativa, nos guia pelas mais belas e assustadoras imagens do sertão, nos da uma perspectiva do homem em sua nudez. O sertão é poesia para ele, e ele consegue se descobrir nesse mundo tão peculiar e insensível. Riobaldo não é uma vítima, e sim um sobrevivente, como tantos outros.
O que era isso? Que a desordem da vida podia sempre mais que a gente.”
Para mim é muito difícil comparar uma obra dessa com qualquer outra. Este livro me pegou de surpresa; eu jamais imaginei que ia sentir novamente o que senti quando li Crime e Castigo. Até hoje tento entende-lo completamente, e tenho a certeza de que jamais conseguirei. Mas o que eu posso e consigo espremer dessa literatura já acho fantástico.
Grande Sertão: Veredas, é o único livro brasileiro que está entre as 50 maiores obras literárias do mundo. E não é a toa. Até mesmo a narrativa muda paralelamente com o desenvolvimento do personagem que narra a história. Ele consegue nos passar o que ele sente, e nos faz sentir seu crescimento individual e a forma como ele se dá. A impressão que tenho, é como se estivesse observando de cima, uma estrada circular por onde todos caminham. E quem nos ergue pelo pé e nos faz ver esse torto caminho de cabeça para baixo, é a narrativa reveladora de seu personagem principal. E se chove nessa estrada acidentada e circular, eu terei a certeza que serei eu, la de cima, chorando ao ter uma visão tão clara (apesar do sol e do calor do sertão), de como é que a vida segue nessa estrada onde vamos acabar nos perdendo e morrendo, mas que nunca deixará de ter seus andarilhos.
Aprender a viver é que é viver mesmo.”
Com Guimarães Rosa, o Sertão é intuído, e não analisado. A ideia do livro não é fundamentar o sertão, mas vê-lo por aquilo que ele é, e não por especulação poética, como muitos outros autores o fazem. Grande Sertão: Veredas é a morte e sofrimento banhada de uma poesia real, assim como é a vida em toda a parte do mundo.
Fernando Aureliano
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Asfixia.
Mutável, ambivalente e perturbado. Diretor de animação e ousado. Adora cachorros e cerveja; usa Apple e não vive uma semana sem ir ao bar jogar conversa fora; não sabe mais escrever a mão e ama a música; é ateu e não tem papas na língua. É a típica pessoa que, ou você ama, ou você odeia. Não gosta de quem concorda com ele, e admira as pessoas que discordam de suas ideias. É viciado em informação e está sempre disposto a se reinventar.



