Porque ter um dedo a menos fez diferença
Escrito em 20. jun, 2009 por Milena Azevedo | Tema: Quadrinhos, Resenhas
Rich Koslowski verbalizou o que quase todos nós sempre tivemos curiosidade em saber quando criança: por que os personagens animados da Disney e da Warner geralmente eram retratados com um dedo a menos nas mãos?
Narrado em forma de documentário sensacionalista para a TV, Três Dedos – um
escândalo animado (140 páginas, P&B, R$ 39,90), de autoria do já citado Koslowski, lançado no mês de maio, pela Gal Editora, colhe depoimentos de vários “animados” aposentados, como Millie Marsupial, Engasginho, Janota Jr., Pernalouca, entre outros, sobre a meteórica carreira de Rickey Rat, capitaneado pelo cineasta e produtor Dizzy Walters, e o boato de um possível ritual a qual os animados deveriam ser submetidos caso desejassem o estrelato.
O roteiro é bem amarrado, fazendo uma paródia com o início da história da sétima arte, passando pela transição entre o cinema mudo e o falado, os estúdios que despontavam (“Warmer Brothers”, a MGM), os astros e estrelas, os casamentos arranjados, as ligações de alguns astros com a política e com as causas sociais, as primeiras animações e o boom de cartoons que surgiu entre as décadas de 1930 e 1960.
Ao longo da história, vamos deparando-nos com uma porção de referências, como cartazes de filmes dos Irmãos Marx e de Buster Keaton, audiências no Senado para averiguar o chamado “ritual” – que nos remetem à subcomissão de investigação do Congresso, pelas quais passaram as editoras de quadrinhos em meados da década de 1950, encabeçadas por Frederic Werthan, onde vários desenhistas, roteiristas e donos de editora foram convidados a prestar depoimento –, e os assassinatos de John Kennedy e Martin Luther King, e o suposto suicídio de Marylin Monroe, todos interligados ao apoio desses três aos “animados”.
Três Dedos ganhou o Prêmio Ignatz de Melhor Graphic Novel de 2002 e foi uma aposta certeira da Gal Editora, a qual teve como primeiro lançamento o álbum Filósofos em Ação, e que promete lançar outros títulos underground, para um público que curte HQs autorais e cabeça, com um leve toque de ironia. A editora já anunciou Box Office Poison, de Alex Robinson (o qual será batizado de Fracasso de Público) e Filósofos em Ação – vol.02, da mesma dupla do volume 1, Fred Von Lente e Ryan Dunlavey.
OBS: para os norte-americanos, o polegar não é considerado propriamente um dedo, daí o título do álbum fazer alusão a três e não a quatro dedos.
Milena Azevedo
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Asfixia.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Discípula de Rilke e Eisner, prefere os textos simples e eficazes, sem muito floreio-vazio-pseudointelectualóide. Aprendeu com Heródoto e com Burroughs a relatar o que vê e ouve e a inventar o que não consegue enxergar.




