Quem precisa de desenhista? Conheça o “Roteirista”
Escrito em 10. jul, 2009 por Joseniz | Tema: Comportamento, Quadrinhos
Trabalhar em equipe utilizando a arte sequencial é complicado. Nem sempre roteirista e desenhista se dão bem e mesmo duplas criativas como Stan Lee e Jack Kirby tiveram seus desentendimentos. Eis que o quadrinista Laerte elaborou uma tira genial sobre o assunto.
A arte sequencial segundo Eisner é: “Um veículo da expressão criativa, uma disciplina distinta, uma forma artística e literária que lida com a disposição de figuras ou imagens e palavras para narrar uma história ou dramatizar uma ideia”.
Existem profissionais de quadrinhos que fazem tudo sozinhos: roteiros, desenhos, colorização, letreiramento, edição… Posso citar como exemplo o próprio Will Eisner, Art Spielgman , Marjane Satrapi, Jean-Philippe Stassen, Henfil, Lourenço Mutareli, Ai Yazawa e Gene Luen Yang entre outros.
Estes profissionais, fazendo uma comparação com outra linguagem, são os “atores completos” da arte sequencial. Eles sabem interpretar construindo bem seus personagens, trabalhando as nuances de texto e respeitando as suas pausas; eles sabem dançar conforme a música que é tocada no contexto histórico, político e social em que vivem, sabem como cantar e tocar as suas histórias de forma que os acordes da música te despertem para uma sinfonia de palavras marcantes.
Não comparem os autores ou os trabalhos, tentando estipular valores e rótulos. Eles são pessoas diferentes, apresentam trabalhos diferentes, tiveram experiências de vida diferentes e seus estilos, apresentados em seu traço, são diferentes. Uma história sobre um homem que podia voar não vale mais do que uma história sobre o holocausto; a história de uma criança no meio de uma guerra no Irã não vale menos do que a dificuldade vivida por uma criança africana nascida em Ruanda; a história de um homem paranóico com a opressão da ditadura não vale mais do que a história de um cãozinho sem pernas; a história de duas jovens de mesmo nome e idade que acabam dividindo o mesmo apartamento não vale menos do que a história de um jovem tentando se adaptar a um mundo estranho em que vive.
Eu já tive uma visão bem limítrofe de alguns quadrinhos, julgava sem conhecer direito. Por exemplo: X-Men!
Eu tinha preconceito contra os X- Men! Eu imaginava que as histórias eram muito superficiais, apenas com pula-pula e raio-raio. Só mudei de ideia quando percebi toda a importância do trabalho feito por Stan Lee e Jack Kirby, depois de ler uma história de seus sucessores Cris Claremont e Brent Andersom na história intitulada: “Deus Ama, O homem mata!”. A pessoa que me apresentou esta história me contou toda a contextualização histórica da década de 1960, nos Estados Unidos, com as leis de segregação racial. Os mutantes são uma metáfora ao racismo e a discriminação e simbolizam o diferente . Eles são os negros, as mulheres e são também as pessoas que trabalhavam buscando viver suas vidas da melhor maneira possível como aberrações de freak shows, em circos, para que as pessoas rissem de sua cara num misto de sentimentos contraditórios.
Depois, percebi que as posturas sobre a discriminação racial de Xavier e Magneto são praticamente as Martin Luther King e Malcom X, respectivamente. Mas, vocês podem imaginá-los como Gandhi e Hitler, ou outras pessoas com ideias divergentes. Magneto é um personagem complexo e boa parte de sua postura é reflexo do que aconteceu durante o holocausto. Ele é um dos vilões mais bem construídos que já vi. Alguém assistiu a Corpo Fechado? Magneto é para o Senhor Vidro o tipo de vilão que se confronta fisicamente e psicologicamente. Mutantes são personagens que são oprimidos, mas que podem oprimir também. Mutante é um conceito metafórico atemporal e é por isso que continua tão atual hoje quanto na década de 1960. Podemos substituir a palavra mutante pela palavra muçulmano ou, em um contexto futebolístico, podemos substituir a palavra mutante por torcedores do palmeiras no meio de uma grande torcida organizada corintiana. Depois de perceber tudo isso, e de conhecer melhor os mutantes, desisti de trabalhar Shakespeare e mudei de ideia quanto ao meu projeto de encenação para conclusão de curso. Se hoje sou licenciado em artes cênicas, devo isto aos senhores Stan Lee e Jack Kirby. Não subestimem os X-Men. Hoje, costumo acompanhar os X-Men nos quadrinhos e nas adaptações cinematográficas, também. Detestei o terceiro filme porque não tratava a discriminação racial da mesma forma que os dois primeiros. Lembro-me de quando fui assistir, meio com receio, ao primeiro X-Men. Já tinha visto muitas adaptações de quadrinhos horríveis de se assistir, mas quando vi a cena inicial, com Magneto tentando salvar os pais no campo de concentração, pensei: esta cena já valeu o ingresso. Pena que o conceito de mutante tenha se banalizado ultimamente. Todo artista, de certa forma, é um mutante que precisa de liberdade para trabalhar.
Eu não considero a arte somente como arte, ela também é uma ciência. Os artistas são o tipo de pessoas que pagam para ficar observando corpos putrefatos, em necrotérios, com todas as moscas e odores, correndo risco de serem presos para poderem estudar a anatomia humana, porque na época eles não tinham os livros prontos; que ficam pintando a mesma igreja várias vezes para estudar o modo como a luz incide sobre ela; que fazem misturas químicas para criar elementos cênicos ou novos pigmentos para pintura. Se você não compreende a linguagem ou o que motiva estas atitudes, pode pensar que eles são baderneiros, vadios ou loucos.
A arte é uma área de conhecimento independente e, ao mesmo tempo ligada à todas as outra àreas que formam o ser humano. Ela tem um estudo, ninguém cria nada do nada. Não foi apenas a maçã que caiu na cabeça de Newton, foi a organização de todos os elementos que ele estudou sistematizados na ideia de gravidade. Existe um motivo para Augusto Boal, teórico de teatro brasileiro falecido neste ano, afirmar que “somos todos atores”. Ele teve um percurso de estudo e experimentação teatral até chegar à esta conclusão. Assim como Picasso teve que estudar o clássico para só depois se aventurar pelo cubismo, Einstein não criou a bomba atômica sem saber o que é um átomo. Pensando bem, a bomba atômica não é um bom exemplo de atitudes humanitárias. Afirmar que o artista é só quem tem o dom é negar a nossa capacidade de aprender.
A arte é tão complexa que é tudo isso e não deixa de ser arte também. Para falar sobre a criação de um trabalho, em seu livro Desvendando os Quadrinhos, Scott Mccloud utiliza uma metáfora com uma maçã simbolizando o trabalho pronto. A maçã possui 6 camadas que representam os passos para se elaborar um trabalho. No centro da maçã está a ideia, em seguida estão a forma, idioma, estrutura, habilidade e, por último, a superfície na casca. Ele detalha cada uma das camadas e diz que é importante se concentrar em cada uma delas e não apenas na superfície, ou seja, na aparência estética. Na arte sequencial, desenhista e roteirista possuem papel igualmente importante. Nem todo roteirista de quadrinhos sabe desenhar muito bem e nem todo desenhista de quadrinhos sabe escrever muito bem. Nada mais natural que um auxilie o outro, formando parcerias na busca de fazer quadrinhos com qualidade. Posso citar algumas parcerias memoráveis como: Harvey Peckar e Robert Crumb, Alexandro Jodorowsky e Jean “Moebius” Giraud, Albert Underzo e René Goscinny, Kazuo Koike e Goseki Kojima, Marv Wolfman e George Péres entre outros. Mccloud afirma que as imagens (informações recebidas) e textos (informações percebidas) precisam ser conciliadas e não tratadas individualmente, distanciando-se uma da outra. Vou falar de duas abordagens de roteiro diferentes: uma desenvolvida por Stan Lee e outra por Alan Moore.
Stan Lee desenvolveu o roteiro “marvel way”, no qual uma sinopse da história é dada ao desenhista e a partir daí ele tem liberdade para criar as cenas, usando a narrativa mais adequada, e logo após o desenho feito são acrescentados os diálogos. O “marvel way” permitiu que Stan Lee criasse vários personagens (boa parte dos melhores personagens do Universo Marvel) e desse conta dos roteiros de várias revistas ao mesmo tempo. Este tipo de roteiro é ótimo de se trabalhar em curtos espaços de tempo, mas tem suas desvantagens: Stan Lee tinha Jack Kirby e Steve Ditko como desenhistas, ele teria o mesmo êxito com os personagens se tivesse como desenhista o Rob Liefield? Stan Lee, como falei na introdução, teve desentendimento com os autores citados por causa deste tipo de roteiro e a liberdade criativa que dá aos desenhistas que se consideram os verdadeiros criadores dos personagens. Quem é o verdadeiro criador dos personagens da Marvel? O roteirista ou os desenhistas? Dá pra afirmar que Lee não criou o Homem-Aranha depois de todo o trabalho que ele fez? Lee criou boa parte dos melhores momentos do personagem, tanto que os roteiristas atuais tem dificuldade em fazer boas histórias. Então, eles acabam criando sagas do clone, do corno ou, na busca de arrumar um culpado para as péssimas histórias, culpam o casamento de Peter Parker com Mary Jane e o desfazem da pior forma possível: um pacto com o demônio Mefisto.
Alan Moore desenvolveu um tipo de roteiro chamado “à prova de desenhista” porque no roteiro tudo é tão minuciosamente descrito que o desenhista não tem muita liberdade criativa, ficando à mercê do roteirista. Este tipo de roteiro também tem seus problemas, pricipalmente se for um trabalho planejado a longo prazo. Big Numbers, com uma história complexa sobre a teoria do caos, feita em parceria entre Alam Moore e Bill Sienkiewicz só teve duas edições publicadas e não foi adiante por causa de desentendimentos entre os dois quadrinistas. Bill Sienkiewicz gosta de experimentar técnicas, mas o modo como Moore elaborou o roteiro não permitia que ele tivesse a liberdade criativa que costumva ter ao fazer seus trabalhos. Recentemente disponibilizaram as páginas da terceira edição deste trabalho na internet, se quiser conferir é só clicar aqui. Será que o roteiro “à prova de desenhista” é a melhor maneira de se trabalhar? Moore fez ótimas parcerias , a parceria com Melinda Gebbie foi tão boa que os dois se casaram, e isto lhe rendeu trabalhos memoráveis e premiados (incluindo o inacabado e citado Big Numbers). Moore não curtiu o modo como seus trabalhos estão sendo adaptados para o cinema e fez questão de tirar seu nome dos créditos, destinando todo o dinheiro para seus desenhistas. Acho legal a atitude dele, sem falar que é um exemplo de ética. Ele tem criticado bastante o modo como a indústria do cinema está agindo, e concordo com ele em vários pontos. Alan Moore não odeia adaptações de quadrinhos, ele adorou Homem de Ferro, por exemplo. O que ele não gosta é do modo como seus quadrinhos estão sendo adaptados, entendendo que boa parte deles deve permanecer nesta linguagem mesmo.
Estes são apenas dois exemplos diferentes de como trabalhar roteiros. Você pode criar sua própria maneira de escrever, mas lembre-se de a que tudo vai depender do desenhista. Não é legal impor um trabalho que o desenhista precise descaracterizar seu estilo de desenhar a favor da história. Tenha sensibilidade para perceber se o traço dele combina com a história que você quer contar. Procure sempre saber qual a melhor forma de trabalhar com o desenhista. Alguns preferem receber um roteiro “marvel way”, outros um roteiro “à prova de desenhista”, outros gostam de descrições da ideia da história, e tem aqueles que não querem nem saber do roteiro, preferem que você faça apenas uma raff da história. Tudo depende do desenhista com quem você fez a parceria.
Laerte Coutinho é um grande mestre da narrativa gráfica. Ele sabe conciliar, de maneira artísticamente sensível, desenho e roteiro. Conheço seus trabalhos desde a minha infância, nas revistas Piratas do Tietê, Circo, Geraldão e Chiclete com Banana, que ele fez com los outros 2 amigos, Glauco e Angeli. Sempre que saía da escola, comprava uma destas revistas que ficavam expostas na calçada. Eu me divertia pra k-ray com elas! Cada um de los três amigos tinha uma forma de contar uma história, mas eu identificava mesmo era com os trabalhos do Laerte. Tinham várias citações de quadrinhos de super-heróis dentre outra coisas. Me lembro de uma história em que um cara está andando pela rua e cai uma máquina de escrever na cabeça dele, daí ele ganha visão de raios-x e se depara com uma banca de revistas onde estão várias raspadinhas e ele vê qual delas está premiada. Ele estava liso leso e louco e pede para um traseunte pagar para ele, o transeunte concorda e diz que vai comprar duas e ficar com uma. Só que pouco depois cai outra máquina de escrever e ele volta ao normal, esquecendo qual das duas raspadinhas está premiada. Não me lembro mais em qual revista foi e nem tenho mais boa parte das revistas que tinha na época. Mas sei que as histórias são divertidas. Li algumas recentemente e ri tanto quanto na minha infância. Falando em infância…
Alguns dos melhores programas da televisão brasileira que já assisti, como TV Pirata e TV Colosso, foram escritos por ele. Só confirmei depois, mas já suspeitava quando via o nome do Laerte nos créditos. Não lembra dos programas? Não é do seu tempo? Tudo bem, com a internet é possível ver ao menos trechos destes programas que dificilmente passarão novamente com a TV politicamente correta de hoje em dia.
E foi graças à internet que descobri a existência desta tira entitulada “o roteirista”, que fala da relação entre roteirista e desenhista. Nela, Laerte descreve quando esta relação chega ao limite . Na tira, o roteirista parte de uma linha de história simples, mas complexa:
Imediatamente senti um sentimento de catarse. O roteirista criado por Laerte fez o que eu já quis fazer em algums momento estressantes. O que acontece após a morte do desenhista, você pode conferir no blog Manual do Minotauro. Mais do que isso, você pode conferir as outras das mais de 20 séries de tiras instigantes de Laerte, como Moro, O Pequeno Travesti, além da tira que entitula o blog. Fazia tempo que não lia um trabalho do Laerte, foi bom ler as tiras e ver o quanto ele evoluiu em seu trabalho. É diferente, mais profundo, introspectivo, reflexivo, passa emoções e sentimentos, é um novo Laerte e no entanto ele continua sendo o mesmo. É genial. É preciso que mais pessoas conheçam este trabalho e o critiquem.
Os artistas precisam de pessoas que critiquem seu trabalho. E quando falo crítica, não associo a falar mal ou bem de algo, partindo de seu umbigo. Falo de um diálogo com a linguagem apresentada.
Não me considero um jornalista, acredito que para poder afirmar isso ainda tenho um caminho a percorrer, um caminho com bastante estudo e prática. E não é porque para exercer este trabalho não precise de um diploma que vou pensar diferente. Sei que existem péssimos jornalistas, mas também existem ótimos profissionais, que fazem diferença na sociedade e eles merecem ser respeitados, independente de terem diploma ou não. Por enquanto, sou que nem um Clark Kent em início de carreira: um cara tímido, desajeitado, que usa óculos, que morava no interior e está aprendendo a se socializar e a fazer um bom trabalho ao escrever suas matérias na cidade grande. Só consigo pensar em mim mesmo como jornalista, desta forma, igualzinho ao Clark Kent.
Tem uma palavra que gostaria que se referissem a mim, enquanto estiver escrevendo ou desenhando para o Asfixia, e esta palavra não é jornalista, ela se chama “autor”.
Sou o autor do texto que estão lendo agora. Se gostaram, odiaram ou se sentiram apáticos com o texto, eu sou o autor responsável por ele. Não costumo fazer textos imparciais, eu tenho uma postura para cada coisa que escrevo (nem que esta postura seja sentado na cadeira), e neste texto não é diferente. Tenho o péssimo costume de escrever o que penso e de procurar um diálogo com as pessoas para quem escrevo. Não estou escrevendo para massagear meu ego, ser destaque no meio jornalístico, ou a possibilidade hipotética que considero mais imatura: demontrar superioridade de conhecimento.
Quando escrevo sobre algum assunto, estou apresentando e compartilhando com vocês o meu ponto de vista sobre um determinado assunto. Meu objetivo é que joguem o jogo das palavras escritas na busca de compartilhar conhecimentos. Encarem como um jogo. Jogos só não são divertidos quando você está brincando com um cara chamado Jigsaw. Se eu tenho um ponto de vista A sobre um assunto e você tem o ponto de vista B, conversando podemos chegar a um ponto de vista C, que não percebemos inicialmente, mas que só descobrimos graças a este jogo.
Não sou, como diria o Didi Mocó, um “sabe tudo”. Eu me engano às vezes, eu erro também, tenho meus medos, tenho uma paranóia relacionada à língua portuguesa tão grande que, quando estou escrevendo algum texto, chego a sonhar que esqueci uma vírgula e volto aqui para conferir. A paranóia é tanta que agora com a reforma ortográfica não sei mais se minha paranóia é com ou sem acento agudo.
Não tem como saber o que alguém pensa sobre determinado assunto se ninguém se expressar sobre ele. Se você se sentiu agredido com algo que escrevi, ou a sua memória emotiva te fez recordar de um momento feliz, ao ler o texto, eu nunca vou saber se você não escrever nada. Vai me deixar aqui como um garotinho, esperando que o chamem para jogar bola ou uma garota que só quer ser convidada para dançar no baile. Quero jogar bola com vocês, quero ir para o baile, quero ficar aqui sentado, tomando chá e conversando com as pessoas interessantes que vocês são; quero conhecer vocês melhor… Mudem o roteiro e passem a se expressar mais. Aqui, quero que se sintam em casa, e que a cada nova postagem seja um jogo novo. Não me deixem aqui esperando por algo que nunca irá acontecer.
Namastê!
Joseniz
já escreveu
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Asfixia.
Joseniz Guimarães é licenciado em Artes Cênicas pela UFRN (RN), professor de artes, quadrinhista das trevas e luz, ativista social, eterno membro da Sociedade Teatral de Atores Infames, membro da República dos Quadrinhos,colaborador do CENOTEC (Laboratório de Estudos Cenográficos e Tecnologias da Cena) na UFRN, pesquisador e um viciado em artes onde já experimentou de tudo. Costuma respirar arte pra não morrer no Asfixia.








Milena Azevedo
jul 11th, 2009
Que belo texto, Joseniz! Esse é pra muita gente ler e entender as diferenças entre composição de roteiros e a relação entre roteiristas e desenhistas (que é melindrosa, podem apostar).
Embora aqui no Brasil o roteirista não seja tão valorizado quanto lá fora (vide França, Itália, Inglaterra, Japão), há profissionais de mão cheia, como Gian Danton, Wellington Srbek, Daniel Esteves, Jozz e Antonio Cedraz, Marcelo Quintanilha, só para citar alguns.
Sem os roteiristas, não há história.
O trabalho criativo de uma HQ é dividido entre todos os que participam dele. Muitos se esquecem do arte-finalista (“aquele que cobre o desenho”), que é tão menosprezado quanto o roteirista, e também do colorista (em alguns casos) e do letreirista.
Graças a Deus que os meus “partners” desenhistas são muito gente fina e sempre há uma troca de ideias que enriquece a história. Muitas vezes a gente que escreve não tem a experiência visual do desenhista, e as dicas deles de composição/diagramação devem ser levadas em conta. Procuro deixar meus roteiros abertos para as sugestões deles. O que não aceito é quando o desenhista quer alterar algo da história em si, modificando atitudes de pesonagem ou cenários ou a temporalidade da narrativa.
Milena Azevedo
jul 11th, 2009
Só para deixar claro, quando mencionei a questão do desenhista modificar algo da narrativa e dos personagens, quero dizer que há quem faça modificações sem conversar com o roteirista. Às vezes, trocando ideias, pode ser que seja necessária uma modificação, mas tem que haver diálogo.
Um exemplo disso foi o meu conto Lâminas, que o Estiva quis desenhar e Guerra o adaptou num roteiro massa. As ideias de Guerra enriqueceram muito a história, e foram ideas que eu não havia pensado, a princípio. A gente conversou e eu fiquei encantada com a perceção de Guerra e sua experiência como ator, pois ele foi a fundo nos dilemas dos personagens. Não posso contar detalhes porque essa graphic novel ainda está sendo produzida e a gente está à procura de editoras interessadas em publicá-la. Quem sabe num making of?
OBS: Joseniz, paranoia, agora, é sem acento.
joseniz
jul 11th, 2009
Concordo contigo Milena. Toda a equipe criativa tem que ser reconhecida.Sou fã da Lilian Mitsunaga, considero ela a letrista brasileira com o trabalho mais formidável de todos. Eita!Paranóia? Sem acento? Tá com a muléstia! Ainda não estou acostumado com a reforma ortográfica.
Namastê!
Natalia
jul 11th, 2009
Parabens pelo texto, foi brilhante!
joseniz
jul 11th, 2009
Obrigado Natália, vou continuar me esforçando por aqui.
Namastê!
Guerra
jul 13th, 2009
Vou ter que comentar! Passei por aqui super tímido, pensando em ler e dar o fora, mas quando eu vi o comentário da Milena em relação ao nosso trabalho,”Lâminas”, senti como que uma invocação! Essa questão de união entre as diferentes (ou nem tão diferentes assim) colaborações de quadrinhistas num mesmo trabalho reflete aquilo que transparece tanto nas relações humanas e animais: A Territorialidade.
O espaço da prática criativa, tal como outros focos de trabalho e dispêndio de energia, não existe sem aquele personalismo, o qual todos nós aplicamos à objetos de nossa estima; estamos ligados àquilo que criamos, são nossos “parimentos pessoais”. Assim, desvencilhar-se dessas ligações é como apartar-nos de íntimas verdades! Daí as resistências em se trabalhar criativamente em grupo: A crença de que o “Eu” fica menor quando entre o “Nós”; ainda mais quando o “Nós” em questão é formado por várias vozes ativas de uma vez!
Mas o Artista precisa reconhecer o Belo, o Estético, mesmo quando não diretamente ligado a ele! Quando Caetano Veloso diz que “Narciso acha feio o que não é espelho”, é sob as margens deste assunto que ele está a caminhar: Se num trabalho coletivo, um artista só compreende a participação externa, como subtração da sua…Menino, esse cara tem mesmo é que trabalhar sozinho! Dessa forma, produzirá até melhor! Mas quando há o ouvir-se mútuo, onde a comunicação, de fato, adiciona àquele substrato o que apenas um só profissional não adicionaria…Aí existe o pensar da Arte como um bem comum, como Continente, e não como Ilha. Acho que era isso que eu tinha a dizer: Derrubem as suas cercas e espalhem os bois de ambos os campos!
Prometeu não ficou com o fogo só pra ele, certo?
Guerra
jul 13th, 2009
Ah, sim! E só pra constar…Não percam, dentre em breve, o lançamento de “Lâminas”, adaptação em quadrinhos do conto homônimo de Milena Azevedo! Quadrinhos para Adultos!
joseniz
jul 13th, 2009
Concordo com o que o Guerra escreveu,é por aí mesmo.
Mas quando Guerra falou de “Derrubem as suas cercas e espalhem os bois de ambos os campos!” me lembrei na hora do dia em que fomos cercados por várias vaquinhas mimosas à noite.Tivemos que passar por debaixo da cerca.
Trabalhem para terminarem o material e publicar, quero ver o trabalho completo e publicado. Namastê!
joseniz
jul 13th, 2009
Só pra constar, Guerra é uma das pessoas mais legais de se trabalhar em equipe. Respeito muito este cabra e seu trabalho.Legal, que não tenha lido e caído fora e ter contribuído com seus conhecimentos neste post.Espero que mais pessoas percam a vergonha e comentem nos posts ninguém sabe mais que ninguém aqui só temos conhecimentos diferentes para compartilhar.
Também estou animado com as parcerias que foram firmadas este ano, incluindo esta com o asfixia.A maioria das pessoas com quem estou trabalhando são legais confiáveis e contribuem cada um ao seu modo para enriquecer o trabalho, o mesmo vale para os leitores é como um simbiose saca? Se tudo correr bem vai ser um ano produtivo para todo mundo.Pelo menos é o que desejo.
Namastê!
Camilo de lelis
jul 22nd, 2009
Matéria brilhante que coloca o roteirista no seu devido valor.
Eu sou Roteirista tb, ou pretendo ser, he he…