Tarantino quer nossos escalpos (Contém Spoilers)
Escrito em 22. out, 2009 por Milena Azevedo | Tema: Resenhas, Sétima Arte
Se alguém tem um projeto que vem sendo maturado durante anos e decide que
chegou a hora de concretizá-lo, espera-se que seja algo matador, explosivo, incendiário. Principalmente quando esse alguém é Quentin Tarantino.
O cineasta mais pop da atualidade mostra que os oito anos que passou escrevendo o roteiro de Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009) não foram em vão. Desde a abertura do filme, com os acordes de “The Green Leaves of Summer”, pincelados da trilha sonora original do filme O Álamo – belíssima trilha, por sinal, que ganhou o Globo de Ouro em 1961 –, somos preparados para as surpresas que Tarantino nos reservará durante as duas horas e quarenta e dois minutos de projeção desse épico de guerra com gosto de western spaghetti.
Bastardos Inglórios é narrado em cinco capítulos, e o primeiro deles nos introduz o personagem Hans Landa (Christoph Waltz em atuação sublime, sagrando-se ganhador do prêmio de melhor ator, esse ano, em Cannes), coronel da SS, cuja alcunha é “Caçador de Judeus”, interrogando calma e engenhosamente um fazendeiro que está escondendo uma família judia. Essa família é chacinada, mas há uma sobrevivente: Shosanna Dreyfus (Mélaine Laurent). Depois, tomamos conhecimento de que Shosanna chega a Paris, consegue uma nova identidade e passa a tomar conta de um pequeno cinema, cinema esse freqüentado pelo heroi de guerra nazista, o jovem Frederick Koller (Daniel
Brühl), que se apaixona pela moça e pretende convencer Joseph Goebbles (Sylverts Groth), o Ministro do Povo e da Propaganda Nazista, a projetar o filme “O Orgulho da Nação”, estrelado por ele, não mais no Ritz, mas sim no cinema de Shosanna. O que vem a ser uma oportunidade única para a judia vingar a sua família. Porém, tem mais gente querendo o sangue dos nazistas. São os Bastardos, um grupo de judeus-americanos, liderados pelo Tenente Aldo Rainer (Brad Pitt lapidado por Tarantino, com direito até a imitação do sotaque de Don Corleone, em uma
cena), conhecido como Aldo, o Apache, por colecionar escalpos dos nazistas que mata. Completam ainda o grupo: Sargento Donnie Donowitz (Eli Roth), conhecido como o “Urso Judeu”, Sargento Hugo Stiglitz (Til Schweiger), Soldado Utivich (B.J. Novak) e Soldado Hirschberg (Samm Levine). O que Shosanna e os Bastardos não sabem é que também irão encarar agentes duplos, os quais estão mais para o lado dos Aliados do que para o do Eixo.
A verborragia (poliglota, dessa vez), a violência exacerbada, as referências pop (legal prestar atenção e depois rever o filme para identificá-las melhor) e a trilha sonora bacana, marcas registradas do cinema de Tarantino, estão todas presentes em Bastardos Inglórios. Há até uma referência aos primórdios das histórias em quadrinhos, quando o Tenente Archibald Hicox (Michael Fassbender) é questionado pelo General inglês Ed Fenech (Myke Myers) quanto
ao seu alemão e este lhe responde que fala “igual aos Katzenjammer Kids” – que são conhecidos no Brasil como “Os Sobrinhos do Capitão” –, tirinha de Rudolph Dirks, fortemente influenciada pela tirinha alemã Max und Moritz, de Wilhelm Busch, que data de 1865.
Bastardos Inglórios é isso: um filme sobre a 2ª Guerra Mundial visto pela ótica de Tarantino, que até teve cuidado em retratar historicamente algumas passagens (vale salientar todo o cuidado da produção com os cenários e figurinos), mas
que preferiu dar a sua versão para o dia em que a Alemanha sucumbiu aos norte-americanos e à vingança judaica (com a ajuda de um negro). É pra fazer o bigodinho de Hitler coçar dentro da cova.
E como sobremesa desse banquete, a Playboy gringa publicou uma HQ com uma seqüencia do filme, com desenhos de R. M. Guerra e cor de Giulia Brasco. Veja seis páginas, clicando aqui.
Milena Azevedo
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Asfixia.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Discípula de Rilke e Eisner, prefere os textos simples e eficazes, sem muito floreio-vazio-pseudointelectualóide. Aprendeu com Heródoto e com Burroughs a relatar o que vê e ouve e a inventar o que não consegue enxergar.



