Uma space opera shakespeareana
Escrito em 11. jun, 2009 por Milena Azevedo | Tema: Séries, TV
Séries de ficção científica costumam ter um público fiel e hermético, que geralmente quer ver algo sobre civilizações extraterrestres, disputas maniqueístas entre as forças do bem e as forças do mal, batalhas espaciais miraculosas e algumas licenças poéticas às leis da física.
O remake de uma série de ficção científica dos anos de 1970 mudou um pouco esse padrão.
Refiro-me a New Battlestar Galactica (ou BSG), cujo início deu-se através de uma minissérie de três horas, em 2003, e durou quatro temporadas, terminando no mês de março de 2009, que melancolicamente nos apresenta um futuro dúbio e amargo.
Quem assumiu o roteiro e a direção de BSG foi Ronald D. Moore (ou RDM), tendo como produtor executivo Glen A. Larson, o criador da série original.
Como não dispuseram de um grande orçamento, sabiam que as cenas das lutas no espaço e os efeitos especiais seriam minimizados, por isso optaram por centralizar a nova trama nos dramas humanos – os conflitos entre os pilotos, os dilemas daqueles que estão no poder e precisam tomar decisões difíceis (arcando com elas) – e na sutil relação homem x máquina e ciência x fé.
BSG começa com o rompimento do armistício entre humanos e cylons, o qual durava 40 anos, e o ataque fatal dos cylons à Caprica, uma das doze colônias. A nave de combate que lidera e abriga os últimos seres humanos é justamente uma nave antiga, com tecnologia defasada, que seria transformada em museu, o seu nome: Battlestar Galactica 75.
A missão da Battlestar Galactica é encontrar a mítica décima terceira colônica, a Terra, conduzindo os seres humanos a um local seguro e a uma nova chance de recomeçar a vida – isso porque a premissa de BSG é de que a vida começou no espaço, num planeta chamado Kobol, e depois é que se dispersou para o nosso planeta Terra.
No comando da Battlestar Galactica está William Adama/Edward James Olmos (que aparece como Comandante e ao longo da série se torna Almirante), auxiliado pelo XO Saul Tigh/Michael Hogan, seu amigo e braço direito. Eles irão dividir os encargos militares com a Presidente das Doze Colônias, Laura Roslin/Mary McDonnell, a responsável pelos civis a bordo da nave Colonial One.
O primeiro óbice que Adama e Roslin irão enfrentar é a descoberta de que a piloto Sharon “Boomer” Valerii é uma cylon disfarçada, ou seja, uma traidora. Na verdade, Boomer é uma “skin job”, um modelo cylon que é similar aos seres humanos. Eles inicialmente irão discordar sobre a punição à Boomer e, a partir daí, os espectadores irão perceber que em BSG não há um maniqueísmo explícito entre protagonistas e antagonistas, pois tanto humanos quanto cylons tem seus momentos de “anjos” e de “demônios”, e muitas vezes se tem dúvida em apontar quem são os mocinhos e quem são os bandidos da série.
Ronald D. Moore também dá ênfase à relação existente entre William Adama, seu filho Lee “Apollo” Adama/Jamie Bamber e Kara “Starbuck “ Thrace/KateeSackhoff, ambos esmerados pilotos. Adama tem Starbuck como filha, uma vez que ela teve um relacionamento com Zak, o seu outro filho, mas a mesma fica dividida entre os sentimentos conflitantes (fraterno e sexual) que nutre por Apollo. Aí se estabelece uma relação triangular interessante, onde Apollo é o cara certinho, racional, burocrata (superego), Starbuck é a figura emotiva, indisciplinada, que vive pelo e para o prazer (Id) – tanto que nas duas primeiras temporadas ela fuma e bebe sem parar, além de incorporar o estereótipo masculino –, e Adama é o paizão de toda a Frota, aquele que procura equilibrar os árduos deveres de um líder com a sensibilidade necessária à paz de espírito, levando esperança aos homens mesmo não tendo muita convicção de que o futuro será azul; um militar linha dura que se permite amar uma civil e entende que pode haver harmonia entre humanos e cylons, ainda que esses últimos sejam o inimigo (Ego).
Outro personagem a ser destacado é Gaius Baltar, cientista (e “pegador”, uma irônica antítese) que vem de uma família de lavradores e se esforça para renegar o seu passado. Ao longo da série, faz jogo duplo, é extremamente egoísta, mas acaba se convertendo à crença cylon do Deus único – os humanos são politeístas – e se torna uma espécie de Messias, que num momento chave da trama tem a sua redenção e profere uma das mais poéticas mensagens sobre a fé.
Já a questão máquinas (autômatos) x seres humanos, presente tanto em Isaac Asimov quanto em Philip K. Dick, é retomada em BSG: enquanto uma máquina consegue chegar a um certo nível de “humanidade” (ter sentimentos, lembranças, ser altruísta e benevolente), os reais seres humanos se tornam cada vez mais mecânicos, robotizados, frios. O problema está em as máquinas quererem suplantar os humanos (a criatura que se rebela contra o seu criador), no sentido de “eu vou acertar onde vocês erraram”, e terminarem num beco sem saída. No entanto, essa “síndrome de Frankenstein” tem uma faceta luminosa porque as máquinas sentem necessidade de mostrar que vão muito além das aparências, querem fazer ver aos humanos que elas tem algo bom e bonito sob aquela “carcaça de circuitos elétricos”.
Em BSG, as máquinas, assim como os humanos, também tomam decisões e fazem escolhas, umas certas e outras equivocadas, e pagam por seus erros e acertos. Porém, não há como quebrar a eterna repetição do ciclo “homem constrói máquinas que se rebelarão e levarão o fim a um mundo conhecido”, mesmo que em um determinado momento os seres humanos optem pela fé em detrimento da razão, despojando-se do poder que a tecnologia traz – o que acontece quando o homem se sente plenamente confortável com a natureza e desenvolve uma relação de igualdade com a mesma –, enquanto o homem continuar a ter necessidade de se sentir superior e assim precisar escravizar espécies diferentes.
A mensagem que fica é a de que a saída está na cooperação, na amizade, na união entre os não-iguais. Resta saber se o ser humano irá amadurecer a esse ponto por si só ou com o auxílio de uma entidade que observa e intervém através de agentes (anjos?, projeções virtuais?), levantando a questão do livre arbítrio.
Por todos os questionamentos que BSG suscita, já se percebe que foi uma série acima da média, mostrando que se pode fazer ficção científica dramática de boa qualidade.
Com isso, afirmo sem medo algum que New Battlestar Galactica foi a melhor série televisiva do século XXI, atraindo até mesmo pessoas que não curtiam harder sci-fi.
SO SAY WE ALL!
Milena Azevedo
já escreveu
47 posts no
Asfixia.
Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Discípula de Rilke e Eisner, prefere os textos simples e eficazes, sem muito floreio-vazio-pseudointelectualóide. Aprendeu com Heródoto e com Burroughs a relatar o que vê e ouve e a inventar o que não consegue enxergar.




Fernando Aureliano
jun 11th, 2009
Esta série realmente foi um divisor de águas. Nunca mais assistirei qualquer outro seriado com os mesmos olhos. Os produtores de séries agora estão F$%&S, pois Galactica estabeleceu um padrão de qualidade e seus fãs orfãos não vão mais ficar satisfeitos com menos do que essa “menina” (citando Adamão quando se despede de sua nave) foi capaz de oferecer.
Milena Azevedo
jun 11th, 2009
Eu sou filha de Adama!
Adamão é o cara mais macho que a TV já criou. Ele é tão macho que protagoniza as mais belas cenas de amor de BSG (as duas duas meninas: Roslin e Galactica).
Galactica deixou um vazio tremendo. Fazia muito tempo que uma série não me pegava de jeito.
Sinto saudades das manhãs de sábado em que a gente (o pessoal da comunidade BSG do orkut) acordava cedo para traduzir as legendas.
Havia muito mais a ser escrito, mas esse texto se dirige principalmente àqueles que ainda não assistiram a essa série. Eu correria o risco de postar algum spoiler fatal (e olha que tem alguns disfarçados), por isso me contive.
Mas, quem se perdeu na cronologia (ou não entendeu a reviravolta final), basta ir à comunidade BSG que há um resumão bacana: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=109572