Voyeur
Escrito em 24. nov, 2008 por Geilson Volking | Tema: Contos
Quando lhe bateram a porta, dois anos após o acidente, Rogério tinha 45 anos e um copo de uísque na mão.
Levemente embriagado, como de costume, apanhou a bengala e mancou em direção a entrada.
Limpou a boca, acendeu a luz e abriu.
— Boa noite — disse ela.
Rogério, sem dizer palavra, fez menção para que entrasse.
E ela entrou. Sentou-se no sofá diante da poltrona e cruzou as pernas. Estava bonita. Aliás, típico. Abriu a bolsa e tirou uma carteira de cigarros.
— Se incomoda?
— Não, pode ficar a vontade.
Rogério se acomodou na poltrona.
— Desde quando você fuma?
— Já algum tempo.
Pela primeira vez seus olhos se cruzaram.
— Você está bem — disse ele.
— Você também não está nada mal.
Rogério balançou a cabeça.
— Por favor, não seja irônica. Bebe? — perguntou mostrando-lhe o copo de uísque.
— Não, obrigada.
— Por que veio aqui?
— Precisava te ver.
— Já faz dois anos.
— É, eu sei.
— E por que tanto tempo?
— Eu precisava…
Rogério esticou o braço e apanhou a garrafa que estava no chão, como um cão obediente ao lado da poltrona. Encheu o copo e colocou-a no mesmo lugar.
Ela olhava ao redor.
— Não toquei em nada… está como você deixou.
— Você tem um cinzeiro?
— Em cima da mesa. Pode pegar?
— Claro.
— E as crianças? — perguntou ele.
— Estão bem. Sentem a sua falta. Perguntam por você.
— Queria vê-las…
Rogério se levantou. Na estante, puxou um vinil e o pôs no toca-discos. A música começou a soar sugestiva pela sala.
— Lembra-se?
Ela sorriu.
— Como eu poderia esquecer — disse voltando à cadeira. — Era a nossa música.
— Era?
Ela parou de sorrir.
— Sim, Rogério, era.
Ele retornou à poltrona. Tomou um trago. Massageou a perna.
— E o joelho, como está?
— Dói mais quando faz frio. Aí eu tomo uns analgésicos… pra aliviar.
— Sei.
— Como ultimamente está fazendo um calor danado…
— Você tem que fazer fisioterapia.
— Eu fazia… mas parei.
— Por quê?
— Sem saco.
Ficaram em silêncio. Depois de algum tempo, Rogério murmurou:
— Sinto saudades.
Ela baixou a cabeça.
— Não deveria ter sido assim, Marta.
— A culpa não foi sua.
— Todo dia eu procuro um motivo pra não me jogar daquela janela. Às vezes eu acho que não dá mais. Sou fraco. A solidão é a pior coisa que existe. É duro não ter com quem conversar.
— E por que você não sai, procura fazer amigos, namorar?
— Eu não consigo. Só quero ficar aqui tomando o meu uísque, escutando o meu som…
— Até quando?
— Não sei… até morrer, quem sabe.
— Não diga isso.
Rogério encheu novamente o copo.
— Depois que vocês foram embora, nada mais faz sentido pra mim. Larguei o trabalho, o Partido, mandei tudo pro inferno.
— Não faça isso, Rogério.
— O que é que você quer que eu faça?
— Há outros caminhos.
— É muito fácil falar. Queria ver se estivesse no meu lugar.
— Você está sendo egoísta.
— Você é que está sendo egoísta. Dois anos sem dar as caras…
— Eu tive meus motivos.
— Outro homem deve ser um bom motivo.
— Não fale besteiras.
— Por que besteiras? Você é jovem, bonita. Onde quer que você esteja, sempre haverá alguém lambendo os seus pés.
— Você não sabe o que está dizendo.
Ele ficou em silêncio.
— É, acho que não.
— Olhe — disse ela—, eu sei que você está sofrendo muito. Eu também sofro com tudo isso, mas não dá. Temos que encarar os fatos. Eu não queria que fosse assim. Porém muitas vezes as coisas não saem como planejamos. Talvez pudesse ter sido diferente, mas “talvez” não muda nada, entende? Você tem que dar a volta por cima. Há muito chão pela frente. Não desista, Rogério, não desista.
— Eu sei. Mas… sem vocês, sem minha família… por que não voltam pra mim? Podemos começar tudo de novo.
— Não, Rogério, não dá.
— Por que não?
— Porque não.
— Então pra que diabos você veio aqui, porra?! — gritou ele.
— Pra ver como você estava.
— Pois aqui estou — disse ele se levantando. — Está vendo? É isso que sobrou de mim. Restos!
Silêncio.
Ela apanhou a bolsa.
— Tenho que ir.
— Como?
— Preciso ir.
— Por quê?
Ela se levantou:
— Me leva até a porta?
— Marta, por favor.
— Desculpa, eu não deveria ter vindo aqui.
— Não, Marta, me perdoe. Eu estou nervoso, não sei o que estou dizendo. Eu…
— Tudo bem… mas preciso ir.
— Fica mais um pouco.
— Não dá.
— Dança comigo.
Ela olhou-o nos olhos.
— Dançar?
— Por favor.
Marta ficou em silêncio por um grande espaço de tempo, escutando Ray Charles debruçado sobre o piano. Então se aproximou de Rogério e o abraçou. E naquela sala de apartamento no oitavo andar, ao som da música que era deles, somente deles, dançaram. E ao sentir que Rogério chorava, Marta o abraçou mais forte ainda, e também chorou. Pelo passado, pelo destino que poderia ter sido diferente.
Há cem metros dali, por trás das lentes de um binóculo, um homem no prédio ao lado observava toda aquela cena: um cara bêbado dançando sozinho às três horas da madrugada em sua sala de estar.
Esse conto obteve o 1º lugar no Concurso de contos da Cooperativa Cultura da UFRN – 2007.
Geilson Volking
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Asfixia.
Roteirista de histórias em quadrinhos que nunca foram desenhadas; poeta mercenário, só faz poesia pensando no dinheiro da premiação dos concursos literários; professor pós-doutorado em começar tudo e não terminar nada; adora filmes que ninguém adora; morre de medo de descolar a retina. Só lê dentro de ônibus. Odeia o sol, só admite a cerveja. Rabisca contos. Foi premiado com o 1° lugar no concurso literário promovido pela Cooperativa Cultural Universitária da UFRN em 2007, categoria ficção. Foi agraciado com três menções honrosas em concursos de poesia do RN (2° edição do Concurso de Poesia Luís Carlos Guimarães em 2002 e 1° e 2° edições do concurso de poesia Zila Mamede 2004 e 2005). Cursou Filosofia, mas não concluiu. Fez Lavínia, mas quem concluiu foi a mãe. Acredita, como Voltaire, que “toda perfeição é um defeito”. Resumindo, é um sem futuro.



Tati
nov 25th, 2008
Geilson, meu filho… YOU ROCK!!!
Vai escrever bem assim na baixa da égua!
Primeiro lugar ainda é pouco!
POSTA MAIS! POSTA MAIS!!!
Manuella Ivanoska
nov 27th, 2008
Oi amor! Bem, vc sabe que és o meu autor preferido. rsrsrsr
Adorei esse conto, acho você o melhor!!!
Te amo.
Erich Hoffimester
dez 29th, 2008
Rapaz, infelizmente meu vocabulário não dispõe de adjetivos suficientes para descrever teu conto!! Portanto, deixarei que meu coração fale: MUITO PHODA!!! Passei dois minutos com meu corpo completamente imóvel, tentando digerir o último parágrafo. Parabéns Geilson, você escreve “fuderosamente”, hehehe.
Geilson Volking
jan 3rd, 2009
Tati: Obrigado. Baixa da égua é a cara da minha mãe!(sem trocadilho)
Manuella: Juro que não paguei pra ela escrever isso!
Erich: Que legal você ter gostado tanto assim. Muito generosas as suas palavras. Literatura é isso, tem que mexer com o leitor, surpreendê-lo, comovê-lo. Obrigado.
Erich Hoffimester
jan 15th, 2009
Ráh, eu é que agradeço (^__^)…