Botando um sorriso sob o capuz ou como Snyder vigiou bem os Watchmen
Escrito em 15. mar, 2009 por Milena Azevedo | Tema: Crônicas, Sétima Arte
Qualquer apreciador da nona arte sabe que Alan Moore é sinônimo de detalhe e preciosismo. Até quem nunca leu uma HQ na vida já ouviu falar de Watchmen e tem noção de que é uma história complexa. Um fã de Alan Moore tem consciência de que os roteiros do “brujo” foram sofrivelmente adaptados para as telas de cinema – faço uma ressalva quanto à V de Vingança, que ficou um filme mediano muito mais pela atuação de Hugo Weaving do que pelas mãos dos irmãos Wachowski –, por isso o temor que se abateu sobre a adaptação de Watchmen foi geral. Eu diria que chegou mesmo até a ser uma espécie de histeria coletiva.
Depois, com notícias, imagens e teasers aparecendo em tudo quanto era buraco na internet, formaram-se dois grupos: os que torciam o nariz cada vez mais e os que apostavam no trabalho de Zack Snyder. Confesso que eu particularmente queria ver Watchmen no formato minissérie para TV – ficaria redondinho –, mas o diretor de 300 sempre teve o meu voto de confiança, mesmo anunciando que não iria incluir Os Contos do Cargueiro Negro – uma HQ inserida nas páginas de Watchmen, uma das primeiras experiências de metanarrativa na arte seqüencial – no corte final que iria ser exibido no cinema.
Após uma espera tortuosa, com direito à pressão da FOX e tudo o mais, Watchmen – o filme estreia no mundo inteiro no dia 6 de março do presente ano. Eu esperei alguns dias para assistir ao filme devido a uma inflamação na garganta, aproveitando para reler a HQ nesse período. Porém, toda a espera foi recompensada, pois saí do cinema maravilhada – dentro do cinema, então, vocês nem imaginam qual era o meu estado –, novamente parabenizando “as mexidas” de Snyder, que soube fazer um apanhado quase perfeito da trama principal da história de Moore, alterando apenas algumas situações que apenas cabiam na mídia história em quadrinhos (como a questão de alterar cores quentes e cores frias nos requadros, como também cada início e final de capítulo serem simétricos).
Vou começar falando sobre as escolhas dos atores, nenhum deles uma grande estrela da sétima arte, que souberam entrar de cabeça nos personagens: Billy Crudup/Dr. Manhattan, Jackie Earle Haley/Rorschach, Patrick Wilson/Coruja, Jeffrey Dean Morgan/Comediante e Malin Akerman/Spectral, ficando um desempenho mediano apenas para Matthew Goode/Ozymandias. Os Minutemen também foram muito bem caracterizados e protagonizaram uma sequência que já virou clássica, mostrando a passagem de tempo entre as décadas de 1940 e 1980, nos créditos iniciais, ao som de The Times They Are A-Changin´, de Bod Dylan (um dos compositores citados por Moore dentro da obra). Até o vilão Moloch, interpretado por Matt Frewer, e o psicólogo negro que cuida do seu caso na prisão, Dr. Malcolm Long – que teve uma participação bem mais enxuta do que nas HQs – estavam perfeitos. Outra bola na cesta foi o visual do Dr. Manhattan, que apareceu nuzinho pelado sem pudor algum, tal qual a versão desenhada por Dave Gibbons.
Quanto à trilha sonora, muito bem escolhida, contendo inclusive algumas músicas mencionadas na HQ, como Unforgettable, de Nat King Cole (propaganda do perfume Nostalgia, de Adrien Veidt/Ozymandias) e You’re My Thrill, de Billie Holiday. Alguns fãs criticaram o fato de Snyder ter colocado Hallelujah, de Leonard Cohen, na cena de amor entre o Coruja e a Spectral, mas na minha opinião ficou perfeito, haja vista Laurie ter sido o amor platônico de Daniel, que finalmente conseguiu tê-la nos braços pra valer (inclusive, pela HQ, supõe-se até que ele era virgem). Outras escolhas certeiras foram as versões de duas músicas do Dylan: All Along The Watchtower, por Jimi Hendrix, e Desolation Row, pelo My Chemical Romance, fechando o filme com chave de ouro.
Snyder foi deveras cuidadoso com o detalhismo de Moore, e mesmo omitindo algumas passagens, como a história completa de Rorschach (mostrando como ele encontrou o tecido com o qual elaborou a sua máscara), a relação entre o jornaleiro, o menino que lê Os Contos do Cargueiro Negro e a taxista lésbica Joey, o escritor Max Shea e outras personalidades desaparecidas na ilha de Veidt, a própria história de Veidt/Ozymandias e o monstro que destrói Nova York (que foi uma homenagem de Moore aos pulps e filmes de FC da década de 1950, uma vez que na HQ os letreiros do cinema anunciam o filme O dia em que a Terra parou), porque focou o filme numa trama bastante política – Nixon pedindo desculpas à União Soviética em rede nacional foi uma ótima tirada –, ainda assim estão lá diversas homenagens à HQ, como a questão da simetria, presente no capítulo 5.
Watchmen – o filme faturou 55,7 milhões de dólares em sua estreia nos EUA. O que é um bom começo.
Não sei se foi o filme que alguns fãs mais exaltados esperavam, mas foi o que Syner pode fazer e o que me deu um imenso prazer em assistir. Vou rever mais algumas vezes e esperar ansiosa pelo DVD.
Milena Azevedo
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Milena Azevedo é Mestre em História pela UNISINOS (RS), empresária, poeta, contista e roteirista de HQ. Discípula de Rilke e Eisner, prefere os textos simples e eficazes, sem muito floreio-vazio-pseudointelectualóide. Aprendeu com Heródoto e com Burroughs a relatar o que vê e ouve e a inventar o que não consegue enxergar.




Fernando Aureliano
mar 15th, 2009
Muito bem dito Milena. E no final das contas, considerando tudo o que poderia dar errado, e o fato de termos saído dessa com um filme com essa qualidade, acho até que é um exagero exigir mais do filme.
Sem contar que nunca mais na minha vida eu vou conseguir ouvir Unforgettable da mesma forma que eu ouvia antes. Tudo parece ter mduado depois desse filme.
Milena Azevedo
mar 15th, 2009
O problema é que muitos esquecem que adaptação entre mídias distintas é um processo de intersemiose (ou “tradução intersemiótica”), ou seja, são necessários alguns ajustes para que o que funcionava muito bem nos quadrinhos seja repassado para as telas do cinema de forma aproximada, mas não ipsis litteris, uma vez que na telona o resultado ficaria desfocado, ridículo até. Snyder soube sintetizar os fatos mais importantes com muito esmero. Por isso eu brado: Snyder rules!
Milena Azevedo
mar 15th, 2009
Esqueci-me de mencionar o fato saudável de Snyder ter deletado o vício pelo cigarro da personagem Laurei/Spectral e de sua mãe, a Srta. Júpiter. Mais uma bola na cesta!
Alex de Souza
mar 15th, 2009
Ótimo texto, Milena.
Como fumante, achei uma besteirada politicamente correta dele ter tirado os cigarros da trama – note que a sequência na qual Silk Spectre acona o lança-chamas no Archimedes ficou um tanto sem sentido. No original, ela pensa que o símbolo é para um acendedor de cigarros quando está fuçando o veículo.
Milena Azevedo
mar 15th, 2009
Ah, tudo bem, nessa cena a piada se perdeu (bem como a que liga o mesmo gesto do Comediante anos atrás). Mas, valeu, Alex!
Alexis
mar 16th, 2009
Concordo com você e com o texto, Milena. Mas ainda acho que você dá crédito demais a esse tal de Snyder…
Admito que eu era um dos que torciam o nariz e no final acabei gostando.
Mônica Silva
mar 16th, 2009
Eu sai do cinema imensamente maravilhada. Concordo com as palavras da Milena, e digo mais, as cenas de luta ficaram impecaveis.
Dentro do possível, um trabalho bem feito.
Milena Azevedo
mar 16th, 2009
Poxa, Alexis, é que Snyder merece os crédito mesmo. Eu sei que você não curtiu 300, mas pra mim foi uma das melhores adaptações de uma HQ já feita, junto com Sin City e, agora, Watchmen. Pode dá mais HQs pro homem que ele sabe o que faz (pelo menos até o momento).
Mônica, valeu! Também achei as cenas de luta bem redondas.
Cimão
mar 16th, 2009
Fodam-se os FanBoys de quadrinhos que gostam de usar cabresto de burro pra só enxergar em uma única direção. Watchmen é “Pau” e ponto final.
FERNANDA KELLY
mar 16th, 2009
MILENA, ASSISTI AO FILME ONTEM E, APESAR DE AINDA NÃO TER LIDO A HQ WATCHMEN, ACHEI QUE ALGUNS TÓPICOS COM RELAÇÃO AO ROTEIRO DA PRÓPRIA HQ DEIXAM A DESEJAR.
AFINAL, PQ QUE OS SUPER-HERÓIS DEVEM SER MASCARADOS, SE ALAN MOORE PREFERE O CAOS?
QUEM SÃO OS SUPER-HERÓIS NA VERDADE?
QUEM SÃO OS VILÕES?
QUAL O PAPEL DA MULHER NESSA HISTÓRIA?
QUAL O PAPEL DA SOCIEDADE OU DO POVO?
SÃO PERGUNTAS QUE SURGIRAM APÓS O FILME.
Fernando Aureliano
mar 16th, 2009
Olá @fernanda, não quero parecer grosso, mas se você precisa que alguém te explique tudo isso, talvez você deva assistir a filmes menos complexos. Sem contar que é normal ter algumas dúvidas quando não se lê a obra original. Recomendo você tentar ler a hq para tentar encontrar a resposta para algumas de suas dúvidas.
Milena Azevedo
mar 16th, 2009
Ah, Fernanda, você precisa ler, aí compreenderá que Watchmen foi uma grande crítica do Moore ao gênero super heroi.
E, Cimão, Watchmen é pau mesmo!
Tati Viana
mar 16th, 2009
O papel da mulher no filme é Jupiter
.
Alex de Souza
mar 16th, 2009
Fernanda,
Você é de Ciências Sociais, de Serviço Social ou é só uma ativista humanitária?
Milena Azevedo
mar 16th, 2009
Respondendo à pergunta do Alex, a Fernanda é cientista social (daí os questionamentos que surgiram em sua cabeça após o filme). Mas, daria sim pra fazer vários trabalhos bacanas sobre o Moore, e esse de gênero cabe sim, podendo até se observar como é que ele retrata as mulheres em suas HQs (lembrando que Halo Jones foi uma das primeras graphic novels a trazer uma mulher como protagonista, que se transformou numa pirata espacial e mesmo assim não perdeu a feminilidade), pois “el brujo” não é misógino, como alguns que não conhecem sua obra estão querendo rotular somente a partir de Watchmen (que traz três personagens femininas apenas: a Silhouette, que é lésbica e é assassinada devido ao preconceito, a Srta. Júpiter, que ama o homem que tentou violentá-la, e a Espectral, cujo os amados são dois nerds). Na verdade, Alan Moore daria objeto de estudo pra muita gente e em várias áreas do conhecimento.
Milena Azevedo
mar 16th, 2009
Apenas para retificar, mencionei apenas as personagens femininas presentes na adapatação cinematográfica.
Fernando Aureliano
mar 16th, 2009
Ainda assim não justifica querer analisar o filme como se estivesse fazendo um estudo estatisco para uma empresa de cosméticos, afinal, o filme não é sobre feminismo. Sem contar que: “PORQUE OS SUPER-HERÓIS DEVEM SER MASCARADOS, SE ALAN MOORE PREFERE O CAOS?“? Bom, essa história não é sobre o autor, mas sobre os personagens deste autor. Alan Moore pode preferir o que ele quiser, mas essa historia não se trata dele, e Alan Moore é um autor maduro o suficiente para não deixar suas ideias pessoais atrapalharem o desenvolvimento de personagens tão complexos que parecem até pensar por sí mesmos. A historia não é sobre Moore, senão o filme iria se chamar: “ALAN MOORE, O VIGILANTE MASCARADO“. talvez ela apenas precise assistir o filme mais umas 50 vezes pra começar a entender isso.
Digo isso aqui apenas para que um leitor desavisado, que ainda não tenha assistido o filme nem lido o quadrinho, não acabe pensando que o filme é tão razo quanto as questões mencionadas pela @fernanda
“QUEM SÃO OS SUPER-HERÓIS NA VERDADE?” Essa pergunta não tem nenhum fundamento para uma história que está muito além do bem e do mal. O buraco é mais embaixo.
Tati
mar 16th, 2009
Eu só sei que o pinto do Dr. Manhattan é o terror das feministas!
Moacy Cirne
abr 8th, 2009
Oi, em primeiro lugar, parabéns pelo blogue, que eu não conhecia. Está muito bem “paginado”. Em segundo lugar, ‘Watchmen’ – sem dúvida – é um dos grandes momentos dos quadrinhos. Mas, confesso, não me interessei pelo filme; aliás, não sou atraído pelo cinema dominado por efeitos especiais, a não ser quando esses efeitos são substanciais para a estrutura narrativa da obra. É o caso, por exemplo, de ‘A última tempestade’, de Greenaway. Já o Chaplin que você viu recentemente é capaz de me emocionar. E muito. Assim como Buster Keaton.
Um grande abraço.
Milena Azevedo
abr 8th, 2009
Prof. Moacy, que prazer saber que você leu e gostou do meu texto. Fique à vontade para comentar todo e qualquet texto aqui do Asfixia.
Quanto aos efeitos especiais no cinema, realmente hoje meio que perdeu a graça porque em quase todos os filmes eles estão lá, e muitas vezes como estrela principal, não como coadjuvantes que deveriam ser.
Peter Greenaway é um cineasta que faz de cada fotograma uma obra de arte, e em A última tempestade ele se superou.
Aproveito para divulgar o seu blog, o Balaio Vermelho:
http://balaiovermelho.blogspot.com/
Enrique Robledo
jun 21st, 2009
Já tinha escutado falar muito bem desse filme, agora após ler a tua coluna, deu vontade de assistir. Até agora em quanto a filme de Super-Herói se refere, para mim ninguém bateu o Dark Knight de Batman. Vamos conferir o famoso Watchmen. Valeu!
Milena Azevedo
jun 21st, 2009
Obrigada, Enrique! Batman – o cavaleiro das trevas é primoroso, sem sombra de dúvida, e está no top five das adaptações de quadrinhos para o cinema. Confira Watchmen e depois conta pra gente o que achou.
Luiz Cláudio - Guaratinguetá
out 28th, 2009
WATCHMEN O FILME M ESURPREENDEU PELA FORMA COMO A HISTÓRIA EM QUADRINHOS FOI ADAPTADA. LI A SÉRIE QUANDO FOI PUBLICADA NOS ANOS 80, RELI NOS ANOS 90 E AGORA VI O FILME. CONFESSO QUE ESTOU INCLINADO A PEGAR DE NOVO E LER PARA COMPARAR COM O FILME E VER OS DETALHES APRESENTADOS NESSA DISCUSSÃO. ENTRETANTO QUALQUER PESSOA PODE ENTENDER A IDÉIA DO FILME, SEM TER LIDO OS QUADRINHOS SE COLOCAR A HISTÓRIA NO CONTEXTO DO MUNDO ANOS ANOS 80 (GUERRA FRIA, O FIM DO SONHO DOS ANOS 60 COM O ASSASSINATO DE JFK E A “SACADA” DE UM NIXON NA PRESIDÊNCIA DO EUA POR TANTO TEMPO. EU ENCARO WATCHMEN COMO UMA LIGA DA JUSTIÇA SEM INOCÊNCIA OU MAQUIAGEM, QUE SÃO AS VERADEIRAS MASCARAS DO CONCEITO DE SUPER-HERÓI, COMO A CONTINUAÇÃO DE UM GRUPO (MINUTEMEN) QUE TRAZIA O CONCEITO DA ÉPOCA DE OURO DOS HERÓIS (QUASE ANJOS), CONCEITO DA SJA. APRESENTA MUITO BEM A IDÉIA DE QUE NENHUM HÉROI É UM POÇO DE VIRTUDES, MAS UM SER HUMANO QUE FEZ O QUE DEVERIA SER FEITO NUM CERTO MOMENTO, QUE O FUTURO RESSALTA COMO VIRTUDE, MAS QUE NA VERDADE USA MUITO DA IDÉIA DE MAQUIAVEL – OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS – E QUANDO SÓ SE TE CONHECIMENTO DO FIM TEMOS ENTÃO O IDELA DE HERÓI, MASCARANDO SEUS ATOS, AI A VERDADEIRA MASCARA. PARABENS PELA DISCUSSÃO DO ASSUNTO
Milena Azevedo
out 28th, 2009
Beleza, Luiz Cláudio! Você é um fanzaço de Watchmen, hein? Watchmen tem uma porção de detalhes que a cada lida (agora, a cada assistida também), a gente vai percebendo. Cada um faz a sua interpretação.