Zorra Total x George Carlin
Escrito em 04. mar, 2009 por Geilson Volking | Tema: Humor, TV
Direcionado a um público com pouco senso crítico, o humor da televisão brasileira é, em uma palavra, estúpido.
Último sábado liguei a Prostituta aqui de casa (é assim que chamo a TV aberta), com a doce ilusão de estar sendo transmitido alguma coisa que não me fizesse vomitar. Pensando bem, não sei nem por que a liguei. Sabe aqueles atos involuntários que você se pega fazendo sem perceber o porquê que o está fazendo? Tipo, você vem pensando pensando e tal e pá e puf e de repente você está escovando os dentes! Mais ou menos isso. Liguei a TV e parei na Rede Globo de Televisão (a cafetina-mor). Passava Zorra Total. Meus genes masoquistas pulaaaaaram de alegria. Então me vi sentado diante desse programa de humor como alguém que espera pacientemente um exame da próstata. Perguntei-me embasbacado: como é possível um programa humorístico não conseguir fazer você rir nem sequer por um milionésimo de segundo? Ou será que o problema é comigo? Os atores são exagerados, falam alto, gritam muito, parece coisa de teatro-pantomima; tudo é clichê, estúpido, imbecil, repetitivo, apelativo, sem graça… quem é o público alvo dessa porcaria? Espero que não seja você, leitor.
Lembro então de George Carlin, ator, comediante e autor norte-americano que morreu no ano passado. Dono de uma língua ferina e de uma inteligência que falta aos nossos comediantes, ele atacava tudo aquilo que ia (e que vai) de encontro à liberdade intelectual de cada um. Ateu convicto, a religião era um prato cheio para sua crítica mordaz. Os grandes temas tanto quanto os pequenos eram abordados com um humor refinado, ágil e, acima de tudo, lúcido. Bem longe desse humor abobalhado que é feito aqui no Brasil. As minúcias da língua, o que fica subtendido em cada frase, em cada pensamento, em cada comportamento eram colocados sob a lupa do seu raciocínio fulminante. Sabe aqueles detalhes que de tão “banais” não conseguimos mais enxergar? Preconceitos, política, superstições, hipocrisias, Sonho e Estilo de vida americano, guerras, etc. eram a matéria-prima de seu Stand-up Comedy. Enfim, ele era um efeito colateral que o próprio sistema americano criou.
Esse estilo de humor usado por George Carlin, o Stand-up Comedy, começa a dar às caras aqui no Brasil (falo do estilo, não do conteúdo). Nomes como: Rafinha Bastos, Diogo Portugal, Bruno Motta, Danilo Gentili, Oscar Filho, etc. já podem ser vistos no Youtube e em algumas participações em programas de televisão. Em 2008, houve um concurso de Stand-up Comedy no Domingão do Faustão chamado “Quem chega lá”; entrevistas no Jô Soares e pequenas apresentações no programa Altas Horas. No entanto, apesar desse espaço estar sendo aberto a esses novos humoristas – até quando não sei -, e do telespectador poder tomar conhecimento desse tipo de humor, falta aparecer alguém com coragem suficiente para falar sobre assuntos que façam as pessoas saírem do lugar comum. No Brasil, especialmente na TV, existe um certo limite, uma certa censura velada, como se fosse “pecado” falar mal de alguns assuntos tais como: futebol, religião, superstições populares e estupidez coletiva. É aquela velha história do cliente (telespectador/leitor/ouvinte) ter sempre a razão, e o melhor é não contrariá-lo, já que o ibope e a venda depende deles e é o que mais interessa a mídia em geral.
Gostaria muito que surgisse um George Carlin brasileiro, sem rabo preso, contra-cultural, crítico social e com total liberdade de se expressar. Uma cara com talento e, acima de tudo, coragem, para jogar na cara de cada um de nós séculos e séculos de superstições e controle social. Enfim, alguém que nos fizesse pensar humoristicamente. Tenho absoluta certeza que nosso país seria um manancial inesgotável de inspiração.
O primeiro destes links abaixo é um video que o Youtube censurou tirando-lhe o som. É aquela velha história de se viver num país pseudo-democrático. Ele fala sobre religião. Recomendo que façam o download, é uma das melhores atuações de George Carlin.
- George Carlin – Religião é Besteira.-
Geilson Volking
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Asfixia.
Roteirista de histórias em quadrinhos que nunca foram desenhadas; poeta mercenário, só faz poesia pensando no dinheiro da premiação dos concursos literários; professor pós-doutorado em começar tudo e não terminar nada; adora filmes que ninguém adora; morre de medo de descolar a retina. Só lê dentro de ônibus. Odeia o sol, só admite a cerveja. Rabisca contos. Foi premiado com o 1° lugar no concurso literário promovido pela Cooperativa Cultural Universitária da UFRN em 2007, categoria ficção. Foi agraciado com três menções honrosas em concursos de poesia do RN (2° edição do Concurso de Poesia Luís Carlos Guimarães em 2002 e 1° e 2° edições do concurso de poesia Zila Mamede 2004 e 2005). Cursou Filosofia, mas não concluiu. Fez Lavínia, mas quem concluiu foi a mãe. Acredita, como Voltaire, que “toda perfeição é um defeito”. Resumindo, é um sem futuro.


